Às vésperas de um Sweepstake
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Recebo convite para participar de um prêmio de trinta milhões e não aceito. Os colegas que pretendem arrebatar o “sweepstake” de amanhã (são vinte, esses compradores de ilusão) dizem que a minha cota na aquisição do bilhete é de apenas trezentos cruzeiros – uma ninharia, portanto; e que a gente pode ganhar – quem sabe? Que a importância dispendida não vai "matar ninguém"; que todo mundo deve jogar, ao menos, uma vez ao ano; que a emoção de candidato em potencial a tanto dinheiro junto conforta, por si só; e mais um turbilhão de argumentos correlatos.
Não aceito, mas também não respondo coisa alguma. Prefiro escutar o que diz, por exemplo, um dos tais colegas se, amanhã, o cavalo do prêmio sofisticado ganhar, lá no Rio, para ele e os demais companheiros de aventura lotérica.
Quase todos desfilam suas reações, com uma frieza impressionante. Eu teria feito melhor perguntando nada, porque ninguém chegou a uma decisão definitiva ou convincente, pelo menos. Houve, até, quem desanimasse, quando soube que o onipresente imposto de renda reclama a bagatela de 45%; donde se conclui que os trinta milhões são utópicos – uma espécie de natimorto.
Alguém falou em automóvel; porém, com tão pouco entusiasmo, que não me convenceu de que eu estava, realmente, em presença de um e-x-futuro pedestre.
Guardar primeiro, por uns dias, para gastar depois, foi a fórmula quase unânime.
Tentei argumentar que isso é falta de imaginação, mas fui apupado e, ainda por cima, taxado de perdulário.
Entenda-se esta: eles apostam trezentos cruzeiros na corrida de um cavalo e eu é que sou o perdulário... Procuro mostrar que não há extravagância alguma no fato de a gente querer gastar um dinheiro que ainda não recebeu, mas acabo levando o epíteto de maluco. Resolvo calar-me e aguardar até segunda-feira, porque os cavalos do Sweepstake vão correr amanhã...
*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 3 de abril de 1959.
*Um sweepstake (ou sorteio) é um concurso onde prêmios são concedidos por chance, e não por habilidade. No contexto de cavalos, é um tipo de loteria ou sorteio associado às corridas (turfe).



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