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Eleições à vista

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

Não pretendemos tratar, nestas poucas linhas, sobre as eleições do mês de outubro, naquilo que estas mais interessam evidentemente: seus resultados. Se estes surpreendem ou decepcionam, no todo ou em parte, é pura questão de ponto de vista de quem esperava muito do processo eleitoral ainda falho, apesar de ligeiramente melhorado. Além do mais – se assim insistíssemos – estaríamos incorrendo numa série de lugares comuns e repetindo tudo quanto já foi dito pela imprensa diária a respeito de fraude, corrupção e facciosismo.


Na verdade, nunca tantos votaram para tão poucos... (Que o velho Churchill perdoe nossa irreverência ao parodiarmos sua bela e famosa frase em circunstâncias menos dignas. Em todo caso, lá na britânica Inglaterra se cogitava, como aqui se cogita, dos destinos de um povo).


Vejamos, portanto, um ângulo que não passou de todo despercebido, é certo, mas ainda não foi convenientemente analisado, muito embora se trate de coisa repetida nos últimos pleitos. Referimo-nos a eleição feita por aqueles que depositaram suas sobre-cartas nas urnas e lá não deixaram cair nenhum voto, substituindo-os pelas tiras humorísticas ou simples pornografias, como testemunho de absoluto descrédito aos candidatos.


Há quem aponte semelhante conduta como obra de espíritos inferiores ou personalidades psicopáticas. Estamos, naturalmente, com essa corrente, porque não vemos definição mais clara para o fenômeno. Uma dúvida, entretanto, nos atormenta desde que nos deixamos impressionar pelo assunto: quem afirma, sem medo de errar que, pelo menos um em cada cem dos chamados "espíritos inferiores", não tinha fome ou outro grave problema, quando enfiou seus insultos, urna a dentro? Decida o leitor.



*Publicado em outubro de 1958, no Jornal do Banco do Brasil.



Sobre o contexto nacional, à época:


Nas eleições de outubro de 1959 (frequentemente associadas ao período de 1958 pelo impacto cultural), a população brasileira protestou, em todo o país, depositando nas urnas desabafos e xingamentos. Em São Paulo, ocorreu um dos maiores votos de protesto da história brasileira, onde elegeram a rinoceronte Cacareco para o cargo de vereadora.


O movimento foi uma reação ao descontentamento com o alto custo de vida, falta de alimentos e descrença nos políticos da época. Como o sistema utilizava cédulas de papel onde o eleitor escrevia o nome do candidato, o jornalista Itaboraí Martins lançou a ideia como brincadeira, e a população rapidamente a adotou. A partir dali, esse tipo de manifestação popular passou a ser denominada como "efeito Cacareco".

 

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