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O problema do pão

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
1 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

O pão nosso de cada dia, até ontem, custava um cruzeiro, e nos dão hoje por Cr$ 1,50. Teriam nos dado, aliás, porque nem mesmo a Cr$ 2,00 ele existe no mercado! Mas, isto não é problema de gente, e sim do estômago da gente – sempre insaciável e exigente. Estômago que teima, insiste em querer alimentar-se, prosaico, num mundo cheio de tanta beleza poética, de rostos bonitos, bustos imponentes, Lolobrígidas e similares.


Mas, estômago que pede comida quando a hora é propícia para dignificar-se o espírito (ou os sentidos?) é órgão destrambelhado, fora de época e de órbita, desajustado, até.

Estômago que se contorce em espasmos famintos, quando o circo da vida é espetáculo permanente e funciona em sessões contínuas, a baixo preço, tem apenas um mérito: serve de assunto para cronista “meia-tigela”, sem ter do que falar. Cronista que não sabe caminhar nem pretende saber como se deve encaminhar o problema da falta de pão - e, enquanto isso, vai mastigando bolachinhas que pouco diferem em gosto, tempo, modo, gênero ou grau, de um autêntico sabonete toucador.


Mas, aí, o problema não é do cronista e sim do estômago do cronista...



*Publicado na Coluna de Inaldo, no Diário da Manhã, em 19 de fevereiro de 1959.

 

 

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