top of page

O rei

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

Aqui, eu conto a história de Aldessilva, moço de 39 anos, que conduz garboso, na barriga, 80 quilos de gordura, saúde e muita disposição. É uma história simples, sem retoques, de um rapaz igual a todo mundo, que faz força como todo mundo, trabalha, “dá murros” e tem problemas como todo mundo. Mas, Aldessilva difere de todo mundo, num particular: sabe se divertir como ninguém! Esta é a sua vantagem – dizem uns. Seu fraco – objetam outros. Eu, por mim, não ponho nem disponho. Aldessilva vive, apenas. A seu modo – é claro – de acordo com as suas concepções de uma fórmula simplista ou do que ele entende por viver. Eis a questão para Aldessilva: viver ou não viver. Filosofia barata, mas pragmática e essencialmente simples.


Vejamos, incialmente, quem é Aldessilva durante os onze meses do ano – fevereiro à parte; do Aldessilva que trabalha, “dá murros”, tem problemas, filhos para educar e muitas bocas para alimentar; do Aldessilva que, como todo cristão que se preza, deve ter os seus momentos de apreensões, canseiras e de aborrecimentos. Aí, ele é “doublé” de bancário e diretor comercial de uma entidade de Classe. Diretor e bancário como bem poucos poderiam ser, em tais circunstâncias – acrescente-se. Bate fichas por atacado e faz contabilidade, a grosso e a varejo, com a disposição de 39 invernos bem aquecidos pela gordura sadia que seus 80 quilos podem proporcionar de energia, num sentido dinâmico.


Dir-se-ia que bancário e diretor se completam – realizam-se, integralmente. Um vive em função do outro.


Entretanto, eis que chega fevereiro com sua mensagem de alegria pagã e de arrebatamentos sensuais. Momo é único e absoluto; seu reinado efêmero, mas inesquecível.


Aldessilva não impõe condições para aderir à pagodeira. Aceita Momo; entroniza em seu coração, o mais original dos monarcas que o mundo conhece. Não fala noutra coisa. Mulher, filhos e similares são figuras secundárias, sub criaturas, ante à volúpia de alegria que domina Aldessilva, entorpecendo-lhe os nervos, dominando-lhe o cérebro.


Aldessilva pula, canta e dança. Realiza-se, noutro sentido. Faz mais, até: satiriza, ridiculariza travestido - o que há de ridículo, satírico e grotesco, principalmente nos domínios da moda e dos costumes femininos. Aí, Aldessilva é “mulher”, é menina sofisticada, mocinha fútil, vazia... É tudo e todas.


Este ano, Aldessilva usou “melindrosa”, talvez para rememorar o evento da “nova linha”. Eu não entendi o alcance ou o objetivo da sátira, e pedi, curioso:

- Explica-te!


Ele não se fez de rogado:

- Carnaval, em última análise, é ou não é palhaçada?


Concordei com um aceno.


- E mulher sem cintura, o que te parece?


- Palhaçada, sim senhor!

 

Comentários


bottom of page