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Só depois dos noventa...

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

 Apesar de tudo, vou dizer não, àquele agente de seguros de vida que me abordou ontem. Aconteceu que o rapaz fez todo um relatório circunstanciado a respeito do que ele classifica de “muito sensato providenciar quando se tem possiblidade de aumentar o prêmio das apólices, porventura, existentes”.


Talvez eu não esteja explicando bem a situação, mas posso resumi-la, nestes termos, para o leitor: o agente quer, na realidade, que meu seguro de vida seja dobrado ou, pelo menos, acrescido substancialmente. No seu linguajar técnico, de uma frieza impressionante, “prêmio”, no caso, significa "dinheiro... depois da minha morte".


É certo que, na oportunidade da entrevista, não deixei de protestar veementemente contra o absurdo daquele temo pouco feliz. O agente achou também que a morte é demasiado cruel para que se possa confundi-la com qualquer espécie de prêmio; e que, se eu desejasse, nós poderíamos fechar o negócio substituindo aquela impropriedade pela expressão “risco”. Para ele não faz diferença alguma, porque no fim, isto é, quando eu morrer, a sua Companhia pagará a quantia subscrita, a despeito do que me possa parecer errado ou impróprio. Fosse como fosse, prometi estudar a situação e dar uma resposta amanhã. Até lá, segundo informei ao agente, eu reuniria o Conselho de Família e, em mesa-redonda, todos discutiriam se o assunto morte, para quem anda pela casa dos trinta anos, deve ser equacionado agora ou pode ser adiado sine-die.


Aconteceu realmente que submeti o problema a quantos pudessem interessar-se por ele, mas ninguém quis discuti-lo. Ao invés disso, alguém preferiu mostrar-me a edição 283 da revista O Cruzeiro, onde se lê, à página 36: A VIDA COMEÇA AOS NOVENTA, etc., etc., etc.

Se o leitor ainda não sabe o que contém no texto encimado por aquele título, procure saber, e depois diga se pode haver melhor argumento para quem pretende refugar uma proposta de seguro de vida.

 


*Publicado na coluna Cotidianas de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 12 de abril de 1959.


*A revista O Cruzeiro veiculou interessante reportagem, onde se lê que a Novocaína talvez nos permita viver duzentos anos...

 

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