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Rádio!

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 3 min de leitura

O cronista Fernando Sabino judiciou, cera vez, que o rádio, que começara no salão de visitas, seria hoje personagem de cozinha.


Duas coisas ficaram subentendidas nessa opinião aparentemente contrária ao rádio. Primeira: ele teria sido derrotado pela voragem da televisão, que já acumulou cerca de quinze anos de sucessos entre nós. Segunda: sua sobrevivência estaria condicionada a uma preferência de classes sócio econômicas.


Ora, contestar a inteligência do Sabino sempre foi e continuará sendo difícil, tanto mais quanto ele se propôs, baseado talvez em sua própria e efêmera experiência radiofônica, a analisar as implicações sociológicas do fenômeno hoje denominado comunicação de massas.


Rádio e televisão colocam-se na vanguarda do êxito tecnológico para informação e recreação do bicho homem, no século vinte. Por isso, é fora de dúvida – tranquilo mesmo – que televisão e rádio, sempre buscando renovação, continuem disputando preferências. Daí, no entanto, para que eles se tornem exclusivistas dessa preferência, vai uma distância que o homem de nossos tempos tem a necessária sensibilidade para conservar inalterada; e, desse modo, estará valorizando, prestigiando, ou lá o que seja, os meios de que dispõe para participar dos progressos artístico-culturais da humanidade.


Pois bem, admitido este ponto de vista – muito pessoal, como é óbvio – diria eu, agora, sem muita pretensão, que o rádio continua sendo companheiro – não especificamente de sala ou cozinha, mas de qualquer lugar da minha casa, inclusive e principalmente no meu automóvel.


Fácil, fácil... é concluir, então, que, morando em Brasília, escuto rádio de Brasília, tal como já tenho respondido a pesquisas tipo IBOPE. Acontece, não obstante, que os “ibopeanos” são exigentes, e preciso caracterizar minha preferência: - Rádio Alvorada, sim senhor!


Por que?


Ainda desta vez, não vejo dificuldade alguma para explicar: às sete horas, ao levantar-me, ela informa o que vai pelo mundo, Brasília inclusive, através de um jornal falado, meio sobre o paternal, porque nos alerta, minuto a minuto, para a famigerada "hora condução" (Olha a hora!...).


Trinta minutos depois – há sempre um depois – surgem, sonoros, os sambinhas para agrado de pseudos ou autênticos ouvintes saudosistas dos estilos Helena de Lima, Miltinho e demais quarentões virtuosos.


Muito bem, e depois?


Evidente que logo após começa a hora dedicada aos moços ditos p'ra frente, para os quais tenho sempre a melhor palavra ou gesto de compreensão – eu que já não posso esconder meus irreversíveis quarenta anos. É a tal programação que a gente não entende lá muito bem, mas aceita como imprescindível a um jovem, tanto quanto nesse sentido outros programas o foram em nossa juventude... Compreensão, maturidade ou outra definição semelhante para esta atitude, ficaria não a meu cargo, porém, mas por conta do ouvinte que teve a bondade de acompanhar-me até aqui.


Prosseguindo, no entanto, ao que interessa-me de perto, prefiro falar sobre o noticiário de hora-em-hora, ponto ato da emissora, e que, vez por outra, leva esperanças a homens como eu, que torcem para que o dia a dia da humanidade não seja um descaminho, mas a certeza de um futuro feliz.


Bem, acredito que, por todos os títulos e confissões, me tenham classificado – eles, os implacáveis do IBOPE – na categoria de ouvinte A; mas, sinceramente, prefiro que me situem no espaço alfabético compreendido entre as letras A e Z, tal seja meu profundo carinho pelo rádio em geral e pela Alvorada, em particular.



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em setembro de 1979.

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