Rascunhando...
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
O rapaz vinha rascunhando suas croniquetas despretensiosas, de três a quatro por semana. A principio resolver intitulá-las, cada qual de per si, usando interrogações meio subjetivas, para não dizer meio cretinas. Coisa de principiante, que o rapaz ainda é, até hoje, em matéria de crônica ou de jornalismo, de modo geral.
Exatamente isto que o rapaz se julga: principiante, com letra minúscula e o mais que se lhe queiram dar como epíteto.
Ora muito bem: um belo dia, decidiu o nosso "herói da pena" escolher um título permanente para as tais croniquetas, acima referidas como despretensiosas. Ei-lo: COTIDIANAS. Troço muito cômodo, esse de se escrever e de não se ter trabalho de fabricar títulos – há de convir o leitor...
E foi assim que nasceu “Cotidianas”, num dia qualquer de março último, lá num cantinho do Diário da Manhã. O programa das ditas croniquetas em nada foi alterado ou melhorado. Aquilo mesmo, no mesmo diapasão e sem mérito algum – além deste que pode caber a um iniciante: vontade de acertar.
Sucedeu, entretanto, que uma semana após o “advento de Cotidianas”, alguém chamou o croniquetista (condição de quem faz croniquetas) às falas, querendo saber, entre curioso e irônico, "- que absurdo de cotidiana é essa que não aparece diariamente?”
O perguntado esclareceu a dúvida: cotidiana era o conteúdo e não o continente, isto é, o que estava escrito e não o veículo que servia para ser escrito, etc. e tal. Conclusão: aquele alguém não gostou da embrulhada feita pelo rapaz, à guisa de auto-defesa, e insistiu “que cotidiano significa cotidiano, aqui ou na Indonésia!" Pelo menos, o dicionário manda assim, e com o dicionário não se discute... O croniquetista engoliu seco e acabou levando o desaforo para casa.
Mas não ficou nisso, apenas. Cotidianas continuou sendo criticada diariamente (não vale o trocadilho) e tão diária e duramente azucrinado o seu autor, que ele acabou entregando os pontos, de uma vez. Encomendou o clichê que o leitor talvez tenha reparado, antes de seguir este texto meio rascunho e um tanto ou quanto idiota, na esperança de poder, de algora em diante, “viver em paz” para sempre.
*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 30 de abril de 1959.
Comentário:
"Excelente. Parece nada... Mas do nada Deus fez tudo." - anônimo.



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