Das desculpas
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 28 de abr.
Lata-velha não é nome – é apelido que um maledicente qualquer botou naquele pobre diabo de quatro rodas, que se arrasta reumático pelo asfalto da cidade.
No seu registro civil consta o seguinte: Chevrolet modelo 19... Americano do norte, por nascimento e vontade dos homens de má-vontade. Cidadão brasileiro, por naturalização, e algo mais. Cinco ou seis cilindros e algumas centenas de cavalos-força, agora decrépitos – de uma senilidade comovente. Por isso, Lata-velha vai se arrastando (triste velhice...) cansado citado, com sua carga humana, de muitas toneladas diárias... E prestando, também, relevantes serviços à coletividade suburbana (ou ao seu proprietário?) que mora a dez quilômetros do Centro.
Sucede que outro dia, já faz uma semana, apanhei Lata-velha, numa hora de grande ansiedade para mim. Meu relógio de pulso dizia, categórico, que o relógio do ponto, lá na Casa em que trabalho, iria acusar considerável atraso à minha chegada. Não tive alternativa: entre comprometer uma reputação de funcionário pontual e aventurar uma viagem sobre as costas cansadas de Lata-velha, preferi a última hipótese.
Seria lugar comum dizer, agora, que a emenda saiu pior que o soneto, porém a verdade é esta mesma: cheguei mais tarde ainda. Contornei a situação como era natural, responsabilizando Lata-velha e o seu reumatismo, pelos vinte minutos que ultrapassaram o horário regulamentar, à sagrada hora do “ponto” cotidiano.
Bem humorado, felizmente, o chefão limitou-se a um comentário, meio dramático, sobre o problema do suburbano que se pendura em transporte coletivo. ...E o “incidente” ficou por isso mesmo, inconsequente, sem mais comentários.
Dias, uma dúvida me ficou, impertinente: o que teria impressionado, realmente, o chefe? A posição ridícula do clássico retardatário que sempre arranja uma desculpa patética ou o reumatismo de Lata-velha – pobre diabo de quatro rodas, que um maledicente qualquer apelidou de Chevrolet modelo mil novecentos e não sei quanto?
*Publicado na coluna de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 24 de fevereiro de 1959.



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