Preconceito?
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Ela acendeu o cigarro com tanta elegância, que impressionou a todos os circunstantes e, particularmente, a nós outros, os mais próximos da sua figura de mulher bonita. Eu, por mim, não resisti à tentação de comentar, com entusiasmo:
- Jamais, alguém dignificou tanto um cigarro – em tempo algum!
Ela sorriu lisonjeada como quem aceita uma verdade histórica, e disse um “você me sensibiliza” muito sonoro e muito coquete. Daí, para que nossa conversa girasse, quase com exclusividade, em torno do tema fumo – suas vantagens e prazeres – foi um lapso de apenas dez segundos. A bem da verdade, entretanto, deve-se dizer que houve um protesto formal, por parte de quem não vê prezar e muito menos vantagem no verbo fumar. Porém, essa foi uma opinião isolada e relativamente suspeita, porque o seu autor nunca provou um cigarro, em toda sua vida. Se não fumou, não pode julgar – é lógico. Fizemos blague, mas o rapaz não se deu por achado e preferiu voltar à carga, com uma série de epítetos injuriosos, através dos quais ele conceitua o cigarro, de modo definitivo.
Vislumbrei, logo, que a situação podia degenerar em severas críticas à mulher que fuma, e por isso resolvi intervir, mudando de assunto. Não consegui meu intento, apesar de tudo, porque a moça bonita do cigarro elegante – ela própria – enfrentou o problema, numa espécie de autodefesa.
Para infelicidade minha, fui eu o inquirido a respeito. Fiz ver, com a maior vontade deste mundo, que não tenho absolutamente preconceitos dessa ordem, e nem faço qualquer restrição, principalmente se a mulher sabe fumar de verdade. Ela sorriu mais uma vez, e graças a Deus o assunto morreu ali mesmo.
Insisto agora no “graças a Deus”, porque, pobre de mim, se ela soubesse que, de fato, existe uma restriçãozinha: acho muito bonito, muito elegante, muito natural até, que todas as mulheres do mundo ajudem a engrandecermos, condignamente, o cigarro... contanto que, dentre elas, não figure a minha...
*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 16 de abril de 1959.



Comentários