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Portugal livre

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 24 de abr.
  • 2 min de leitura

Aquele pedaço de Portugal livre que se chama Humberto Delgado desembarcou, afinal, em terras verde-amarelas. Como e porque ele chegou até nós, os jornais brasileiros contaram durante três meses, através de suas manchetes e editorias.


Não há quem não conheça os detalhes do caso que mestre Salazar ia criando com o governo Kubistchek, como se esse governo não soubesse onde tem o nariz. No fim de tudo, prevaleceu o que tinha que prevalecer mesmo: o direito de um cidadão que pede asilo à embaixada de um país amigo, porque não concorda, em tempo, grau ou medo, com os métodos ditatoriais sob medida, tipo Portugal.


Acontece que tenho um amigo português que quase rompe relações diplomáticas comigo, de vez que andei externando, a ele, meus pontos de vista sobre o desatualizado e mais que ultrapassado Salazar. Meu amigo fez cara feia e disse com veemência: “amigos, amigos, Salazar a parte”, e propôs que mudássemos de assunto. Poderíamos conversar a respeito do que eu bem entendesse (futebol, cinema... o diabo), contanto que o ditador luso fosse poupado – isso para o bem de nossa própria amizade. Não concordei e insisti nos meus argumene – e, por pouco, a casa não cai...


Uma coisa, sobretudo, ofende meu amigo: alguém chamar mestre Salazar de ditador. Segundo seus fervorosos admiradores aqui no Maranhão, o ex-professor lusitano é Primerio-Ministro, com letra maiúscula, sem favor algum.


Chefe do Conselho de Ministros ou do Estado Português (ou lá o que seja), disse ao meu amigo – para nós, brasileiros, Oliveira Salazar não passa de um ditador, pura e simplesmente! E todo mundo sabe que somos as mais autorizadas criaturas do planeta a identificar, facilmente, governos discricionários; isso porque, em nossa própria carne, vivemos quinze anos de amarga experiência. Apenas com uma diferença: aqui funcionou alguém menos ortodoxo.



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 24 de abril de 1959.



Contexto:

Antônio de Oliveira Salazer (1889-1970) foi o líder do regime ditatorial em Portugal conhecido como Estado Novo, governando como Presidente do Conselho de Ministros, entre 1932 e 1968. A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, foi o movimento político e militar que derrubou a ditadura do Estado Novo naquele país, a mais longa da Europa Ocidental, que durou 48 anos. Liderada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), a revolução foi marcada pelo seu caráter pacífico e pelo enorme apoio popular.

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