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O medo que está em nós

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 1 min de leitura

Até parece que a finalidade única da viagem à Lua foi dar vez a que três cidadãos pudessem maravilhar-se à paisagem de lá, oferecida pela Terra. Senão vejamos.

O projeto Apolo, belo e rico (ou mais rico do que belo?), que pressupõe consagração homérica à tão decantada tecnologia dos tempos modernos, pareceu – insisto – circunscrever-se àquela tirada poética do encapuzado comandante da nave espacial – Odisseu modelo 1968, made in USA:


- “A Mãe-Terra (quanta ternura!), vista daqui, lembra um oásis de luz e cor flutuando no negro espaço."


Convenhamos, senhores, que esse “negro espaço", dito assim daquelas paragens, funcionou, cá em baixo, como hífen de pavor - até porque, você que acompanha livros, sabe como eu sei, que medo, receio, timidez ou outro eufemismo qualquer, em situações tais, são legítimos e (por isso) dignos de respeito, se oriundos de homens da dimensão cósmica dos rapazes que navegaram rumo ao inédito.


Sim, meus caros, vamos convir que "homem sem medo diante do desconhecido" pode ser animal irracional ou herói de opereta, é Homem mesmo – já dizem pesquisadores dos misteriosos escaninhos do espírito humano – Sem medo, nunca!


Nossos respeitos, pois, ao sub-reptício pavor contido naquele “negro espaço”, acima referido como atenuante ao arrebatamento lírico de mister “não-sei-bem-o-nome-dele”.

... E a análise a que, pretensamente, eu me propus sobre a primeira viagem à Lua ... vai distante... de Selene.



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 1969.

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