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O imposto “Society”

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Ivanildo é o autor de uma carta que me foi endereçada aqui para a redação. O missivista, que se diz com acentuada vocação ao jornalismo, perguntou se eu li um despacho telegráfico oriundo de Havana, onde se anuncia que o governo revolucionário espera sancionar lei taxando com impostos o colunismo social da imprensa cubana.


Ocorre que Ivanildo é um cronista social em perspectiva, e que aguarda apenas uma oportunidadezinha para “acontecer”, com as suas noticias e comentários mundanos. Ipso-facto, ele, o missivista, sente-se meio abalado face ao “absurdo que esse barbudo recalcado e neurótico pretende perpetrar contra as tradições de um povo civilizado”.


Ivanildo deixa bem claro que sua preocupação maior está na circunstância de que os legisladores brasileiros venham a copiar a inovação. “Avalie você se a moda pega... Nossas colunas especializadas estarão fadadas a desaparecer... e, com elas, minha querida vocação”.


Confesso que gostei da simplicidade de Ivanildo, quando encaminha o problema para um outro ponto de vista pessoal, ao invés de aprecia-lo no conjunto – o que seria pouco sincero. Afinal de contas, os outros já estão feitos, e ele é que precisa aparecer, “acontecer”, enfim.


Pois é, Ivanildo, como você pediu minha opinião a respeito, permita que eu me sirva desta oportunidade para consigná-la. Procedendo desse modo, serei muito sincero como você foi. Respondendo à sua carta, via Pacotilha – O Globo, terei aliado o útil ao agradável: atendo ao seu pedido e arranjo assunto para minha coluna... Coversemos, portanto:


Francamente, meu caro, não me parece que os seus temores tenham fundamento. Em primeiro lugar, não acredito que nossos edis (editores?) – sempre preocupados e muito atarefados – leram sequer o tal telegrama de Havana. Segundo, porque, ainda que eles pretendam fazer qualquer coisa parecida, num futuro próximo, certifique-se desta verdade, prezado Ivanildo: no fim de tudo, o colunismo social sairá ganhando! Duvida? Pois eu me explico.


Então você acha que madame Y ou a senhorita X – frequentemente assíduas do Society brasileiro – e que não fazem cara feia nem regateiam quando compram um vestido de 50 mil cruzeiros em Paris ou Nova Iorque – irão reclamar apenas porque o governo estabelece que as referidas devam pagar imposto para seus nomes figurarem nos jornais? Escute só: se elas não quiserem desembolsar os miseráveis cruzeiros de taxa publicitária, como é que suas amigas, e mui particularmente o resto do Brasil, vão saber que o vestido custou a bagatela de 50 mil?


Ora, meu caro Ivanildo, desculpe o mal jeito: você necessita de um pouco mais de imaginação para perceber que o seu futuro está absolutamente garantido. Confere? Então recebe um abraço do IG.



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em junho de 1959.


*Machete:

"Em Cuba, o governo revolucionário de Fidel Castro pretende decretar imposto sobre o chamado colunismo social dos jornais"

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