O horário da repartição
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Ilustre e prezado confrade Cunha Santos:
Li com muita atenção e muito carinho seu interessante artigo que trata sobre a mudança do horário das repartições públicas, talvez como decorrência do que, nesse particular, fez o Banco do Brasil.
Através daquele trabalho, você evidencia duas coisas. Primeira: uma autoridade de rapaz lido e inteligente, que bota banca erudita e discorre sobre qualquer assunto, com categoria. Segunda: seu ponto de vista de que expediente bancário, tal como serviço público (ambos realizados em turno de seis horas), deve ser programada para a parte da tarde.
No primeiro caso, acho que não posso dizer nada além disto: - parabéns a você! No segundo, entretanto, tenho algo mais objetivo a oferecer: minha integral solidariedade à causa do expediente de 12 às 18 horas. Sim, meu caro, penso como você, também; e tanto é verdade que, em face do seu artigo, este seu confrade animou-se todo a promover, lá no Banco do Brasil (o mesmo Banco que você aponta como “cabeça” da revolução), uma enquete que visa, sobretudo, auscultar a opinião dos meus colegas, depois de quase um ano do regime 7 às 13.
Mas, aqui, cabe um parêntese, porque você talvez não conheça um detalhe importante, a respeito da mudança do horário procedida pelo Banco do Brasil. Ei-lo: o movimento que derrubou 12 às 18 não surgiu, como muita gente pensa, de cima para baixo, isto é, não partiu da administração da Casa, como imposição ao funcionário. Ainda que lhe pareça incrível, sucede exatamente o contrário. Eles, os meus colegas, apenas encontraram receptividade por parte do chefão, e nada mais. Promoveram verdadeira eleição, em que todos se manifestaram e da qual tenho até vergonha de dizer o resultado, ao meu caro Cunha Santos. Mas, fique sabendo: nós, os do contra, não passamos de qualquer coisa pela casa dos 30% - se tanto!
Eu dizia antes deste parêntese, que, depois de ler seu artigo, me dispus a promover também uma eleição, e o fiz, naturalmente em caráter extraoficial – numa espécie de conversa escrita entre os colegas. Derrota vergonhosa. Para encurtar estas linhas, basta dizer o seguinte: caro Cunha Santos, agora, só resta um resquício de autodefesa contra o famigerado 7 às 13. Vou confiá-lo a você, e que meu chefão não saiba - na realidade, eu não gosto de acordar cedo!
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 7 de maio de 1959.



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