top of page

O caso do Zé

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Quando o Zé chega em casa e a mulher pergunta sobre o "caso", ela passa a informá-la, sem nenhuma convicção, a respeito das démarches*. Antes, porém, que o leitor queira saber que diabo de démarches são essas, vamos apresentar-lhe o Zé e o seu “caso”.


Zé é um moço que trabalha para o Banco, como a gente. Ou, melhor dizendo, para a gente do Banco. Ele nos serve no restaurante – dito da AABB – lá no alto do Itaboraí, onde é especialista no atendimento do clássico do dia, agora a 140 cruzeiros por cabeça. Ou por estômago, se assim podemos dizer, porque (aqui entre nós) é preciso mesmo ter estômago para engolir aquele grude. Mas isso é outra história e, de resto, a culpa não é do Zé. Ele bem que se esforça...


O Zé difere dos demais servidores do BB apenas em um ponto – aquele que os entendidos em hermenêutica chamam, pomposamente, de direito. Porque, de fato, ele sempre se sentiu funcionário do Banco, tanto quanto, nesse particular, legitimamente o são os eletricistas, os carpinteiros, os enfermeiros, as sonografistas, etc.


Se, no seu contrato de trabalho, celebrado há mais de 20 anos (pasme o leitor – mais de 20 anos!) ficou convencionado que o Zé, de direito, é serventuário da AABB, é coisa que ninguém – inclusive o Zé, a mulher do Zé, os filhos do Zé – pode compreender. Pois o Zé sempre fala em Banco do Brasil com tanto entusiasmo, como só acontecer com os mais antigos funcionários da casa.


E ninguém compreende também porque o Zé recebe, sem qualquer apelação, apenas salário mínimo, isto é, o salário de fome que, louvados sejam os homens de boa vontade, ninguém percebe hoje em dia no BB. Se o leitor quiser mais um subsídio, a gente não se nega e pode informar melhor: o Zé não tem sequer direito a abono familiar, gratificação natalina e o mais que se sabe a respeito das vantagens que todos nós, funcionários do Banco, sem exceção de vigilantes, eletricistas, médicos, contínuos, serventes, etc., usufruímos, em face do espirito de equidade tradicional em nosso Banco.


Pois bem; o Zé, cansado de ir de Herodes a Pilatos, sem nada conseguir, além de promessas vagas, desesperado com a situação, resolveu encaminhar recurso junto à Justiça do Trabalho. E até agora (já faz muito que o “caso” não sai das démarches), o Zé não viu nem ouviu nada a respeito de coisa alguma. Procurou-nos e fez um pedido para que falássemos em seu favor.


Pois é, Zé. A gente está com você. Não desespere. Espere!


***


Senhor presidente: o Zé é amigo da gente, há tantos anos... E, depois, o quadro do restaurante é tão pequeno, nem vai pesar no orçamento de um Banco tão grande e poderoso como o nosso... Não dá para dar um jeitinho?



*Publicado no Jornal do Banco do Brasil, em 13 de março de 1963.


*Démarches - Procedimentos, em francês.

Comentários


bottom of page