O aniversário de Zé Henrique
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Zé Henrique completou quatro anos numa sexta-feira, mas resolveu comemorar o acontecimento no dia seguinte. Quem quer fazer a festa que Zé Henrique fez encontra, na dignidade de um sábado, oportunidade mais adequada.
Os salgadinhos e os doces foram encomendados às centenas, quase sempre na mesma proporção das garrafas de guaraná e de cerveja também. Aliás, esse detalhe nunca foi a preocupação máxima do aniversariante, que somente impôs a seguinte condição: queria muito menino em casa, para as tradicionais brincadeiras da idade. Zé Henrique deve ter pensado, lá com seus botões, que comes-e-bebes, hoje em dia, é problema que interessa mais de perto ao convidado... quando este é adulto. Menino se contenta e fica feliz com um pedaço de bolo, porque bom mesmo é correr e espocar balão, é pular e suar a camisa.
Mas, acontece que os pais de Zé Henrique convidaram muitos amigos maiores de vinte anos. O anfitrião não se perturbou com isso – é verdade – porém seu entusiasmo pela chegada dos marmanjos sempre funcionou na razão direta do presente que cada qual oferecesse. Sejamos mais claros: Zé Henrique distribuiu seu melhor sorriso, de acordo com a importância do “avião à jato”, por exemplo, ou de um “carro de corrida” de último modelo. Caixa de sabonete e vidro de perfume nunca mereceram o beneplácito de Zé Henrique – coisas prosaicas, no seu entender.
Entretanto, como em aniversario tudo pode acontecer, aconteceu, que alguém foi cumprimentar Zé Henrique... com a cara, apenas. O aniversariante estendeu a mão direita, mas recebeu somente isto: "muitas felicidades para você seus papás!" E ainda por cima, o tal resolveu conjecturar sobre o futuro do garoto. Médico? Bancário? Militar? Ora, o futuro... (e o olhar de Zé Henrique foi significativo) que importa isso? Para os seus quatro anos, apenas uma coisa tem importância decisiva: o presente!...
Apesar de decorridos três dias do aniversário, esse alguém quer de certo modo penitenciar-se junto à Zé Henrique, oferecendo, agora, esta crônica ao menino, mas receia que ele possa protestar mais ou menos nestes termos: - aquele “vigarista”, além de comer e beber por dois, vai arranjar assunto para o jornal às minhas custas...
*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 17 de março de 1959.



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