No dia das mães, por procuração...
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Recebi, de um colega distante, a mais original procuração de quantas me outorgaram até hoje. Digo original, porque, apesar de ainda não me ter casado, em nome de quem quer que seja, não considero nada excepcional e muito menos original, o fato de alguém assinar compromisso com noiva alheia, a pedido de um amigo ausente. Isso acontece diariamente e nem vale à pena continuar escrevendo a respeito. Vamos ao que interessa.
A procuração do colega veio pelo telégrafo nacional, mais ou menos nestes termos: “- sem ligar para preço (vírgula) compra presente vistoso e oferece à minha mãe, de minha parte, e que ela abençoe seu filho (vírgula) grande dia das mães (ponto)”.
Situação difícil essa de a gente colocar-se em lugar de outrem, em questões de gosto (reagi, a princípio, aqui com os meus botões) principalmente se o tal gosto tem que funcionar na compra de um presente que um filho saudoso e distante pretende oferecer à genitora, na data em que todas as genitoras do mundo recebem do bom e do melhor. Mas, como colega é colega, deixei o monólogo para depois e meti mãos à obra.
De vitrina em vitrina (ah como são insinuantes as promoções comerciais para o segundo domingo de maio; e porque sejam, quem compra nunca sabe se quem vende faz daquilo um meio ou via a um fim) cheguei onde queria e comprei bem! – Digo de passagem.
Talvez, agora, o leitor deseje saber o que foi; porém este “problema” é da excelentíssima que vai receber de minhas mãos, em nome do filho acima referido como distante e saudoso...
O balconista que me atendeu acabou descobrindo a quem se destinava o presente e, por isso, perguntou – amável – se eu já havia resolvido minha própria “situação”. Acenei um “sim” agradecido pela sua atenção e me afastei incontinenti, talvez temendo que ele terminasse por conhecer uma verdade muito triste: no Dia das Mães, eu quase não ofereço, e sim peço a Deus-Todo-Poderoso por aquela que está ao Seu lado, há muito tempo, e que me deixou uma saudade de vinte e seis anos.
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã", em 12 de maior de 1959.



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