Meu caro Zé
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Lá, como você deve ter lido por si, e (por isso) estamos suficientemente informados de que a Lua será conquistada em julho próximo.
Os meios para consecução do objetivo tido e havido como "realização maior dos tempos atuais", todo mundo já sabe. Descerão, em Selene, dois portentosos (e porque não dizer super-homens) norte americanos; e descerão – eu dizia – de um aparelho, por todos os títulos e complexidade, semelhante a uma aranha. Um minuto após, ipso-facto, estará conquistado, em nome de quem não se sabe ao certo, mas estará conquistado – insisto – o outrora reluzente espelho de noites imortais.
Veja lá, meu caro, que eles pretendem caracterizar o acontecimento como “conquista”, isto é, aquele mesmo substantivo matriz de verbo belicoso, que milênios de humanidade vêm conjugando até hoje...
Conquistar o espaço – inclui a Lua – (e não desbravá-la) será o ato final dessa corrida que nos empolga a muitos (ainda que decepcionando um pouco) e que dará, sem dúvida, a dimensão precisa do ambicionado e inusitado pouso lunar.
Conquistar, sim, meu velho, conquistar...
Não corramos no dicionário para ver se há eufemismos, suficientes por si sós, para suavizarem o que eles em verdade desejam, pois será isso mesmo, de cuja clareza – você, eu e demais visionários – não temos a menor dúvida: tomar posse ou possuir, na forma abreviada e talvez simplificada da ação implícita.
Não há, na Terra, exemplos de humildade bastante para fazê-los mais humildes, capazes mesmo de sentirem-se realizados em apenas descer, ver, perscrutar a imensidão do desconhecido, a grandeza do Futuro, e depois voltar... simplesmente.
Não, Zé, eles tomarão posse, ou seja, conquistarão o satélite (o inverso também é viável), em nome de quem – como se disse antes – não sei ao certo.
Conquistarão Selene tal como conquistaram, ontem, terras outras, mares outros e até marenostrum, de modo que sempre tenham motivação para continuar disputando, brigando, matando-se, por muitos séculos ainda!
Reconheço, meu caro, que agora quase caí no lugar-maior da crítica própria desse espirito anti-guerra, que homens simples como você – dignos de Hagá muito grande – resolveram defender em meio a tanto ceticismo, cansaço e desesperanças. Isto, no entanto, seria outra estória (ou História mesmo?), sobre a qual pediria licença a você para falarmos amanhã. Até lá.
Entrementes, receba "saudações selenitas" e um abraço cósmico do IG!
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 1969.



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