Macacos e foguetes
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Miss Able, nascida cidadã do Zoo, sem grandes pretensões além de crescer mordiscando bananas e similares, de uma hora para outra foi elevada às culminâncias de especialista em pesquisas siderais. Colocaram-na em um foguete made in USA e despacharam-na rumo às estrelas, com passagem de ida e volta paga pelo governo americano.
Able superou as expectativas de seus mandões ditos racionais, voltando da viagem feliz da vida, e portando considerável bagagem de conhecimento científico, que eles, os mandões, não tiveram coragem de colher pessoalmente...
E foi um Deus-nos-acuda a recepção oferecida a Miss Able – o quadrúmano pioneiro dos espaços desconhecidos. Festa grossa, com campanha para muitos e bananas para tão poucos; flashes a espocar e, porque não dizer, poses especiais em que Able figuraria nos magazines mundiais como vedeta que olhou Marte e Vênus, a uma distancia de causar inveja a Júlio Verne.
Mas eu dizia que Able voltou portando enorme conhecimento cabedal científico, por isso que até alavanca do tipo morse ela aprendeu a manejar, de modo a comunicar aos seus patrões que no espaço extraterrestre, às vezes, faz frio – noutras faz calor insuportável; e, sobretudo, que lá as coisas andam às mil maravilhas, sem a menor necessidade de inspetorias de trânsito a dar palpite sobre quando as estrelas decidem promover uma corridazinha de auto-pista.
Sucedeu, entretanto, que os “inventores” de Able não ficaram satisfeitos com os relatórios feitas pela pioneira de viagens interplanetárias e resolveram operá-la, assim como quem opera mocinha que se queixa de apendicite. Não que Miss Able pedisse qualquer coisa nesse sentido – que ela não pediu em verdade. Mas os seus patrões, pouco satisfeitos com os resultados até então obtidos, decidiram que a ciência estava a exigir mais e mais.
As agências telegráficas dão conta de que Able não passou sequer da anestesia – Ela suportou, durante a memorável viagem, situações as mais absurdas possíveis – e morreu, simplesmente, naquela mesa cirúrgica.
É o caso de se perguntar agora: - a quem devemos debitar pela morte de Miss Able? À ciência? Aos homens da ciência? Ou à sagrada ambição de ambos?
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 6 de junho de 1959.



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