Elas e o futebol
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Para o brasileiro saturado de rotina, a questão de ordem levantada pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), sobre se mulher pode ou não jogar futebol, veio mesmo a calhar.
Não se sabe exatamente como surgiu. O certo é que as Mariazinhas, as Julietas e as Lourdinhas de Minas Gerais deram, agora, de trocar o salto alto pela chuteira de Pelé; a camisa de malha, estilho "Lolobrígida", pelo prosaico de uma congênere confeccionada na fábrica Superbol. Não que lhes fique pouco elegante – porque o problema não é defender ou esconder o bonito que a natureza lhes deu. Absolutamente! Fazer e levar gols é o seu objetivo.
O pretexto para mulher chutar bola (sempre há um nestas ocasiões) é o de promoverem festas de caráter filantrópico. Arrecadar dinheiro de quem possa despender 50 ou 100 cruzeiros, e distribuí-los aos necessitados destes brasis.
Ora, direis vós que me acompanhais nesta crônica: - benditas sejam, por tão nobre inciativa! Eu também concordo – Quem protesta, no caso, é o CND, e alega que futebol é para homem.
Naturalmente que os “grandes” do desporto nacional determinaram a proibição, baseados em considerações técnico-biológicas, ouvindo "doutores no assunto Mulher". Do ponto de vista "científico", é claro!
Mariazinha tem licença para jogar vôlei, basquete ou tênis – contanto que não se meta a competir com Zagalo e Garrincha. Caso contrário, o Conselho pretende meter os responsáveis (do sexo masculino, evidentemente) na cadeia.
Agora, permitis uma pergunta, oh vós que chegastes comigo até aqui: se moça pode jogar basquete, e não há perigo nisso, porque se lhe vedam o direito de fazer gols? Mas eu vos digo, sem medo de errar, que se me fosse propiciado opinar a respeito das duas modalidades desportivas, eu talvez escolhesse uma terceira. Esporte bom mesmo ainda é aquele que as Isabeis ou as Lourdinhas começam praticando em janelas baixas, de mãoszinhas dadas, e terminam no pé do altar.
Agora direis: - retrógrado, passadista!... E eu vos agradecerei com um “muito obrigado e até a próxima, se Deus quiser.”
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 27 de maio de 1959.



Comentários