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Chineladas

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Arre, que só faltava mesmo uma guerrinha particular, a domicílio, neste Brasil conturbado, cheio de problemas econômicos e transbordante de agitações sociais. Pará e Amazonas resolveram encetá-la.


Consta que ambos querem ir, um às fuças do outro, por aquilo que eles classificam de “região contestada do Nhamundá ou Jamundá” – ou qualquer coisa parecida, enfim.


Tal como no episódio pitoresco dos dois irmãos que cresceram juntos, sempre unidos, e depois disso resolveram brigar por causa de uma donzela coquete, aqueles dois estados da federação estão necessitando de gordas e sonoras chineladas de mamãe velha – no caso, a própria Federação. E parece que acabam saindo de verdade – elas, às chineladas. Pelo menos, foi o que mestre Juscelino mandou dizer pelo telégrafo aos brigões. Ou param de uma vez com o barulho ou o presidente da república desembarca soldados federais para acabarem com o ri-fi-fi.


É incrível que gente tão rica em vastidões territoriais queira, agora, disputar uma língua de terra selvagem e praticamente inabitável. Vamos ver, meus amigos, que no começo da história tem cheiro de petróleo aguçando a cobiça dos dois irmãos belicosos. E vai daí, que eles nem se dão conta do ridículo a que se estão expondo.


Onde já se viu alguém falar em guerra, na base de contingente de centro e cinquenta homens? (São estas as cifras que Pará e Amazonas dizem estar mobilizando, em suas fronteiras). Com tão pouco, o máximo que se pode fazer, hoje em dia, é caçar índio manso e despreocupado... Fora disso, é gastar tempo e derramar sangue de pobres pais de família, pessimamente pagos, numa luta inglória e sem grandes resultados – porque no fim tudo é Brasil.


Paraense ou amazonense, ninguém, em última instância, quer deixar de ser brasileiro – eis o principal! Então, para que brigar? Por uns vinténs a mais ou a menos, que a região litigiosa possa representar na arrecadação de impostos regionais?

Ora, ora, meus amigos, só muita chinelada mesmo...



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 30 de maior de 1959.

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