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Calças e decotes

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

 

O sempre grande e festejado Monsenhor Arias Cruz diz, em seu trabalho intitulado CALÇAS E DECOTES, que certo dia, ao caminhar pelas ruas da cidade, viu um grupo de três moças, sendo que uma delas vestia calças compridas. Monsenhor não gostou e decidiu escrever sobre “essa extravagância ostentada pela filha de Eva, em exibição”, resultando daí, que nós, seus leitores, fomos brindados com interessante página a respeito de atualidades, tais como, “café-society” e congêneres: “deusa-moda & americanismo”. Tudo, naturalmente, de acordo com o ponto de vista de Monsenhor, que, por coincidência, é também o ponto de vista dos seus admiradores incondicionais.


E foi assim que, depois de estudar minuciosamente o assunto, mestre Arias Cruz conclui que “calça de homens, vestida por mulher, gera, dentre outras, as seguintes consequências: uísque, cigarro... e o mais que se sabe”.


Eu, pelo menos, sei de um caso que Monsenhor não sabe, mas vai ficar sabendo agora, porque eu próprio vou contar. Há dois anos atrás, aconteceu que um rapaz conheceu uma jovem muito simpática e muito graciosa. Do verbo conhecer ao verbo amar, foi questão de poucas lições, apenas. Amizade sólida, quase indestrutível – dessas que terminam no pé de um altar, com preleção bonita de Monsenhor Arias Cruz e bênção de Deus-Padre-Todo-Poderoso. Mas (aconteceu uma “mas”, caro Monsenhor), infelizmente não houve bênção nem preleção bonita, por isso não houve casamento, exatamente porque o rapaz não vinha concordando, de uns tempos até o momento, com as modas pouco femininas da jovem simpática.


Ele tentou explicar, por exemplo, que “a moça veste calça comprida” e que faz disso um hábito arraigado - pode agradar americano do norte, mas nunca a "brasileiro sensato". Ela não acreditou no que ouviu e disse que "isso não passava de mentalidade de provinciano retrógrado". Resumindo a história: ele queria, como continua querendo, uma mulher cem por cento para casar-se e procurou outra, e já está noivo desta segunda. Casamento marcado para a próxima semana, com bênção, preleção e o mais que Deus lhe der.


Ela, Monsenhor? Pois sim, não é que eu ia me esquecendo: ela continua realmente usando calças compridas, mas passa muito bem... obrigado!



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 19 de abril de 1959.

 

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