top of page

Bill, o milionário

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Quando Bill Douglas tomou aposento para dois, na portaria do Hotel, os olhares da cidade voltaram-se com simpatia em direção do casal recém chegado. Daí, para que o americano de quase dois metros de altura fosse recebido pela sociedade, com honras de general de brigada ou de ministro de estado, foi questão de poucas horas – de um dia, no máximo. E Bill, até que o merecia – pelo seu porte impressionante, pelo seu carro esporte, pelos seus dólares e, quanto mais não tivesse, pela sua condição de estrangeiro e de playboy internacional.


Naturalmente que ninguém iria perder tempo com mesquinharias do tipo “que é ele?”, “de onde veio, mesmo?”, “Vale à pena a amizade?” Claro que a tradição funcionaria mais uma vez: se é americano, é bom!


Madame Douglas, então, foi um espetáculo a parte. Mulher viajada, que seus amigos aqui da província cercavam com uma aureola de misticismo, porque a referida se dizia asiática e "milionária do ar". Conhecera Bill nas suas andanças pelo mundo. Um juiz de paz resolveu uni-los, por imposição de Cupido, com chuva de arroz, marcha nupcial a domicílio, etc. – ainda que madame, num dia de depressão, se dispusesse a contar a verdade, trocando o juiz por um gerente de hotel, e o arroz do figurino pelos dólares de Bill, ainda assim, seus amigos não acreditariam, jamais. Tudo não passaria de fruto da maravilhosa excentricidade desses estrangeiros fabulosos... Por isso, dona Douglas ia monopolizando e dominando para sempre.


Um dia, porém, a notícia estourou, cedinho, nem sequer o sol havia aparecido de todo: mister William Douglas e sua digníssima consorte eram caso de polícia!


Aconteceu como que uma consternação geral. O casal fora insultado, não podia ser – absurdo! Mas não ficaria assim, não senhor! Um mandado de segurança mostraria aos agentes do FBI que Bill era “gente de bem”, a despeito de sua frieza quando, de uma feita, (assistido por vários amigos) procurando saber sobre o drama dos retirantes cearenses, apontou, em inglês, o remédio certo para aquele mal. Servindo-se de um português altamente comercial, alguém traduziu, entre gargalhadas fartas, que somente a generosidade de uma dose de uísque pode proporcionar: “formicida tatu... e por atacado!”


Infelizmente, o FBI não tomou conhecimento dos mandados e esperou, paciente, que o Capitão Mor do Catete cumprisse o seu dever.


O resto foi contado pela agencias telegráficas...



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em abril de 1959.

 

*Manchete:

"Foragido da polícia americana é localizado e preso em São Luís" - Abril de 1959.


Comentários


bottom of page