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Beber ou não beber?

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

A notícia aparece a um canto, lá no fim da página de O GLOBO do Rio de Janeiro, e diz textualmente: “o vinho é um poderoso antibiótico, comparável, mesmo, à penicilina”; e que quem descobriu isso, ironicamente, foi um cientista francês... componente do Alto Comando da Luta Contra o Alcoolismo.


Depois, linhas abaixo, a gente tem oportunidade de ler algumas considerações técnico-científicas a respeito da curiosa descoberta. Eu disse, depois, com muita propriedade, porque o certo é que antes de se tomar conhecimento dos tais detalhes, apenas uma vontade irresistível nos sacode o corpo, da cabeça aos pés: examinar se o jornal publicou, também, a fotografia do responsável pela teoria revolucionária, e com que cara ele se apresenta ao público. Infelizmente, não há o clichê procurado – circunstancia que não nos impede de fazer uma ideia, isto é, de criar mentalmente a expressão desconsolada daquele que foi apanhar lã e saiu tosquiado; daquele que passou a existência apregoando que álcool é veneno lento, que álcool mata de verdade, para depois chegar a uma conclusão também verdadeira: o vinho é particularmente eficaz contra determinados bacilos, aos quais liquida, sem apelação, ao menor contato – um micróbio emérito!


Entretanto, a notícia adverte que as conclusões cientificas não devem ser interpretadas como incentivo para que o mundo inteiro resolva beber mais do que bebe no momento. E surgem os indefectíveis dados estatísticos provando (ou tentando provar) que alcoolismo, principalmente na França, é caso de polícia e saúde – uma verdadeira calamidade pública – responsável por tudo o que se faz de mal ou errado, sob a bandeira tricolor.


Admito que a minha posição de quase abstêmio é suspeita, por isso que, quem bebe apenas em batizado, casamento ou aniversário, é pessoa desautorizada a opinar e botar banca sobre etilismo. Mas, o leitor vai admitir também, que os cientistas franceses criaram, agora, uma situação difícil de ser resolvida: beber ou não beber – eis a questão!


Só para lembrar: ninguém tem escrito na testa que é alcoolista. Só se descobre ser alcoólatra - não na acepção de "adorador do álcool", mas no sentido de adoecido por ele -, depois que se bebe. E eis aqui, não apenas uma questão, mas um enigma intrigante e perigoso.



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 8 de abril de 1959.

 

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