A metrópole
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
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Atualizado: 28 de abr.
Lembra-se do rapaz dos seus vinte anos e da ideia fixa de conhecer o Rio de Janeiro, que o dominava, na época (o que não é vantagem, porque, nessa idade, o sonho de uma viagem à metrópole somente não é sonhado vinte e quatro horas por dia, se o provinciano é pobre de imaginação ou primário em suas ambições).
A bem dizer, ele não queria o impossível nem pedia muito – apenas que lhe deixassem olhar de perto aquilo que os cartões postais contavam sobre o Pão de Açúcar, Copacabana e (sinceramente falando) as mulheres de Copacabana, também. Uma espécie de "bolsa de estudos" foi o meio; um navio, o veiculo, e a coisa foi realizada, lá se vão alguns anos de belas recordações. Valeu a experiência, mas ficou a saudade. Agora, exige mais do que um simples passeio a prazo fixo: quer uma passagem de ida (e não confundir com “Ita”)... Sem volta – definitiva, irremediável.
O pretexto que encontra para vencer a resistência de sua mulher (provinciana conservadora, que não vê poesia alguma em morar em apartamento, seja ele térreo ou fique pertinho do céu) é de que a carreira – o futuro digamos – está a reclamar o “sacrifício”.
É certo que madame não fecha a questão, mas nem por isso perde oportunidade de ilustrar os serões familiares com exemplos pouco lisonjeiros a respeito de minúcias igualmente nada lisonjeiras da vida nas grandes cidades. O rapaz procura falar de cátedra, lá do alto dos seus conhecimentos no assunto, ora convencendo ora perdendo na argumentação de que no fim, no cômputo geral, o saldo dos prós esmaga os contras.
No entanto, há momentos para os quais não vê recurso, senão o de "guardar a viola no saco" e esperar ocasião mais feliz... em vez de maravilhas para cantar, em prosa de uma terra dita maravilhosa.
Ontem, por exemplo, um cobrador de ônibus deixou o rapaz em situação difícil, quando, ao cobrar a passagem do casal, e verificando que a cédula apresentada era “introcável”, disse com a maior boa vontade deste mundo qualquer coisa que dispensou o pagamento: os oito cruzeiros da viagem ficariam para outra oportunidade... E alguém cantarolou, baixinho: "no Rio de janeiro não tem disso não, não tem disso não, não tem disso não..." E não tem mesmo – convenhamos.
*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 29 de março de 1959.



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