Amor faturado
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
De vez em quando, a vida de todos os dias prega peças ao ficcionista do conto literário ou da crônica “temperada”, porque, não raro, a realidade dos fatos é tão maravilhosamente absurda, que até pode parecer obra de ficção barata. Exemplifiquemos:
Se, num dia de pouca inspiração, o "profissional da mentira escrita" resolvesse criar uma situação, em cujo epílogo um noivo qualquer esbofeteasse a noiva em praça pública, por causa de uma dívida, fatalmente o leitor reagiria assim: “original, mas pouco romântico”. E, se na história do rompimento, a tal dívida surgisse como consequência das despesas efetuadas por D. Juan, durante o noivado, aí, então, a coisa poderia assumir forma de subliteratura patológica. O leitor diria patético: esse moço (o autor da história, naturalmente) é caso de psiquiatra – doido varrido! Isso não acontece aqui ou no diabo que o carregue...
Mas o noticiário dos jornais do sul garante que aconteceu em São Paulo, e ficou provado, inclusive com documentário fotográfico, que João-Motorista agrediu sua ex-noiva, porque esta não quis pagar, no dia prometido, uma fatura que incluía, entre outras, as seguintes despesas: primeira vez que saímos juntos – Cr$ 50,00 de cinema e lanche; jantar no dia do seu aniversário – Cr$ 120,00; presente para sua mãe – Cr$ 16,00 (uma sogra que se homenageia com tão pouco é, evidentemente, uma sogra de 16 cruzeiros...); boate Azteca – Cr$ 700,00, etc. etc. etc.
Conceição de Paula – a agredida – aceitou, em princípio, a dívida suigeneres. Depois, entretanto, que pediu a conta para conferir, reclamou (exatamente, aí, é que as coisas ficaram pretas) contra o item “despesas não especificadas – Cr$ 400,00". Ela não explicou muito bem a razão do seu protesto; mas, nem por isso, a gente perde o direito de tirar conclusões. De duas uma: ou Conceição achou que a fatura não concorda com as notas de entrega ou “despesa não especificada”, do jeito maroto como foi relacionado, coisa boa é que não era...
O noticiário não diz mais nada a respeito, além de que o caso foi parar num distrito policial. Não obstante, resta saber se a ex-noiva de João-Motorista vai faturar, também, e como represália, os beijos extraoficiais trocados pelo casal, durante o romance.
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 23 de maio de 1959.



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