Ainda o cangaço?

Um capitão Virgulino meio desatualizado e sem Maria Bonita, mas distribuindo morte e terror pelos sertões nordestinos, tal como Lampião I – Eis o cangaceiro que o noticiário dos jornais apresenta ao resto do país.
Ainda desconheço os detalhes do novo capitulo de uma novela, até aqui, julgada tema liquidado. Assim como não sei se o problema do jagunço que está sendo caçado a toque de caixa pela política alagoana é o de um criminoso congênito e hereditário – desses que matam pelo simples prazer de matar. É possível, também, que se trate de um desajustado social. Mais do que possível – é provável. A gente tem que chegar fatalmente a esta conclusão, porque enquanto existir o binômio seca-fome, o nordeste brasileiro continuará fabricando, periodicamente, seus cangaceirozinhos sob medida.
Quase não existe alternativa para o pobre homem do polígono das secas. Entre seguir para o sul à procura do eldorado paulista, que no fundo não passa de miragem em termos de salário mínimo, e ser vendido como gado vacum, nas feiras do interior mineiro, o melhor mesmo ainda é arranjar um mosquetão papo-amarelo e sair por aí...
O que se segue, depois, surge como natural contingência para quem ingressou pelo caminho fácil do crime organizado (ou desorganizado).
É possível estabelecer limitações para o criminoso que começou roubando e matando a fim de não morrer de fome? Os sociólogos dizem que não. O círculo vicioso necessidade-roubo-hábito-necessidade, uma vez estabelecido, somente pode encontrar solução se assim Deus o permitir, isto é, por milagre. E eis que o jagunço marginal vai se entusiasmando com a nova vida, e haja terror, prostituição, barbárie a grosso e a varejo.
Um belo dia ele cai na mira da polícia; uma descarga de pólvora e chumbo resolverá o seu caso pessoal – do ponto de vista da sociedade, bem entendido. Mas, esse castigo sumário terá higienizado definitivamente a mentalidade de cangaceiro que existe, potencialmente, em cada nordestino faminto?
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 9 de junho de 1959.



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