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A palavra de mister Attlee

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

Mister Clement Attlee foi primeiro ministro na Inglaterra, mas, agora, talvez saudoso do poder, escreve para um jornal de Londres – um “dally” qualquer, dos muitos que são vendidos na capital Britânica. Até aí, nada de mais, porque em todos os quadrantes da Terra, política e jornalismo sempre andaram de braços dados. É raro encontra-se um grande estadista que não tivesse militado ou não continue militando através das colunas da imprensa. Julgo, porém, que estas considerações não veem ao bem a propósito do que eu quero dizer, por isso elas não encerram nenhuma novidade. Todo mundo sabe disso. O que interessa é o seguinte: mister Attlee disse, num dos seus últimos trabalhos (não sei se por falta de assunto ou inspiração) que não pode compreender como é que a Rússia e os Estados Unidos gastam tanto dinheiro em pesquisas meio líricas sobre viagens e explorações interplanetárias, quando a humanidade anda passando fome e cheia de problemas correlatos; e que essas fabulosas somas, se aplicadas em obras menos sonhadoras, talvez acordassem os mandões das duas potências, para as tristes realidades da vida.


Até aí, nada de excepcional, mister Attlee deve saber o que está dizendo e ninguém pode contestar, realmente, que os povos de dezenas de nações estejam em situação de penúria, à espera de ajuda mais eficaz e pouco burocrática, da parte dos líderes americanos e russos. A lua e os demais astros do nosso sistema planetário poderiam esperar, mais tempo, a visita do homem da Terra - que, por sua vez, poderia, igualmente, sonhar menos com foguete & discos voadores, até que nossa "roupa suja", isto é, as misérias terrestres, fosse convenientemente lavada.


Esta, todavia, é uma fórmula simplista, que pode retardar em alguns anos o progresso da notável astronáutica; ainda que ela, a fórmula, tenha lá o seu lado prático, e isso não se pode duvidar. A gente consertaria primeiro o muito de errado que existe por aqui por baixo, para depois, então, conquistar os céus, além dos espaços siderais, etc., etc. Exatamente isto é que mister Attlee quis dizer nas entrelinhas do seu artigo, agora difundido por tudo quanto é agência telegráfica do planeta.


Parece que ele tem razão, mas uma coisa é duvidosa: o ex-primeiro-ministro fala como um homem cansado de ver guerras e desgraças neste mundo de meu deus ou apenas pela boca de um inglês melancólico, que vê a sua outrora muito grande Inglaterra – a poderosa nação de cem anos atrás, que dominava mares e terras, e não tinha competidores na supremacia tecnológico-científica – fora da corrida sideral? Inglaterra, coitada, que não tem mais, sequer, recursos para manter a integridade do agora desconjuntado império britânico...



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 26 de abril de 1959.


Clement Attlee (1883-1967) foi um importante político britânico do Partido Trabalhista, que serviu como primeiro-ministro do Reino Unido entre 1945 e 1951, sucedendo Winston Churchill. Ele é conhecido por implementar reformas sociais significativas, incluindo a criação do National Health Service (NHS).


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