A cadeira do chefe

Vamos admitir que você não é o leitor desta coluna, e sim o seu autor. Você passa, então, a ter uma tarefa mais complexa e um pouco mais trabalhosa do que simplesmente ler e julgar, aprovar ou não, aquilo que foi escrito para as suas horas de lazer...
Com ou sem remuneração do jornal, você tem a responsabilidade de agradar ao público, de não decepcionar, pelo menos – quer chova ou faça sol. Muito bem; agora, que você está na posição do cronista, fique sabendo que o seu dia jornalístico começa, exatamente, na operação “assunto”. Escolher um dentre vários ou, na falta dos ditos, fabricar algum. A principio, pode parecer-lhe difícil e pouco escrupulosa a estranha manufatura; mas, com o decorrer do tempo, você se acostuma, entrosa perfeitamente, e a coisa torna-se rotineira. As palavras vão sendo arrumadas, as ideias coordenadas e, quando você menos espera, concluiu sua crônica – a coluna está pronta. Resta, apenas, encaminhá-la à redação. Isto é quase nada, porque o pior já foi feito – você há de convir – e então apanha o paletó, em demanda do Jornal.
Você passa, desse modo, a frequenta-lo diariamente (o Jornal, em sua redação), e acaba fazendo disso um hábito que, aos poucos, vai gerando hábitos correlatos. Por exemplo: não mais sabe deixar a redação, sem antes conversar, dez ou quinze minutos, com o redator-chefe – o tal que sustém, nos ombros, uma tonelada de encargos e atribuições difíceis. Aí, você fica sabendo que planificar e dirigir um jornal não é tão fácil como muita gente pensa...
Pois bem; vamos admitir que, num dia qualquer, você não encontra o seu amigo chefe, mas resolve espera-lo... sentado na própria cadeira do cujo. A secretária oferece-lhe um sorriso amável e diz qualquer coisa que anima você a ocupar, de verdade, aquele lugar, no impedimento do titular. Você mete a mão na sua modéstia e reage através de um tímido “quem sou eu?”, mas no fundo talvez admita que... um dia, não é? – Quem sabe?
... Súbito, o telefone se faz ouvir, impertinente. A secretária atende e diz, com uma boa dose de dramaticidade na voz: senhor redator, a manchete de amanhã é MENINO ESMAGADO POR ÔNIBUS. Depois, então, os detalhes da tragédia que ceifou uma vida que, a bem dizer, nem tinha começado ainda... E você, naturalmente, resolve adiar sua estreia hipotética como chefe, para oportunidade mais feliz, não é mesmo?
Foi exatamente o que eu fiz.



Comentários