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Uma carta

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Ela voltara daquela aventura como que envolvida por um manto de remorso. À menor lembrança do mais insignificante detalhe dos momentos proibidos, o seu corpo estremecia todo, num misto de pavor e arrependimento, desilusão e mágoa profunda.


Seu corpo, até então puro, como pura fora sua alma ou sua carne virgem, como imaculada era a norma de vida que sempre adotara – tudo isso, enfim, já não existia... Morrera seu espírito, apodrecera sua vontade de viver.


O impacto fora tão violento, que forças não lhe restavam mais para suporta-lo. Desaparecer – uma única solução, ultimo refúgio! E foi pensando assim que resolveu escrever ao coautor daquela infelicidade, num derradeiro adeus... que seus lábios não pronunciaram jamais.


“Alberto,

Lutaste para conseguir teu intento. Alcançaste-o; e para desdita minha fui eu a derrotada”.


Na simplicidade daquelas palavras iniciais, toda a tragédia de uma vida desgraçada, toda a amargura de uma alma ferida.


“Como acalentar esperança de ser definitivamente tua, se minha não é tua vida? Teus filhos, tua mulher são fantasmas que surgem a todo instante nos atribulados sonhos deste amor impossível... Perdoar-te, querido? Não julgues difícil, pois te compreendo. Os que compreendem sempre conseguem perdoar...”


Dizer aquilo era demasiadamente duro para seu amor próprio, inaceitável para sua vaidade ferida de morte; paradoxal, provindo da mulher que dera tudo em troca do nada, do absolutamente vazio.


“É imperioso, todavia, que não chores, Alberto, a minha morte, porque levarei à tumba imorredouras lembranças do alegre Alberto de minha vida. Guardo para sempre, querido, o olhar feliz que me deste quando juraste o amor que não era meu, que nunca poderia ser meu”...


***


Os matutinos daquela cidadezinha mobilizaram suas manchetes para os dois casos estranhos e dolorosos que vieram quebrar a monotonia da vida provinciana. Duas infelizes jovens haviam encontrado triste fim, no dia anterior. A primeira, com apenas vinte anos, solteira ainda, suicidara-se por motivos ignorados; enquanto a segunda, esposa do próspero e conhecido industrial Alberto Rogrigues, fora tragicamente fulminada por um fio de iluminação pública partido, no momento em que a inditosa senhora atravessava movimentada avenida.


Os jornais, um tanto lacônicos, prometiam, porém, mais detalhes na próxima edição...



*Publicado no Jornal do Banco do Brasil, em 1954.

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