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Tamanho médio

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Olhou na prateleira do armazém e se decidiu por um de tamanho médio. O vendedor, fazendo blague, ainda perguntou se podia usar papel próprio para presente. Não; bastava que a embalagem fosse discreta – nem de longe lembrando as formas características do objeto. “Você sabe, a agente vai por aí, pela rua, no ônibus, e o troço é de um ridículo irremediável”. Sorriu, sorriram, pagou duzentos cruzeiros e se foi.


No ônibus, enquanto procurava o lugar sentado que não encontrou, considerava, meio filosófico, a situação constrangedora dos que ainda compram tal mercadoria, mas sem excluir aqueles que também a vendem. Ressalvou, entretanto, os fabricantes: estes ficariam no território neutro da isenção. Continuam fabricando, simplesmente porque há procura...


- Eu levo o pacote p'ra você – a oferta partiu de uma elegante, muito simpática e muito solícita senhora, sua quase vizinha de bairro.


- Não, pode deixar, muito obrigado.


Na negativa, havia o natural escrúpulo de quem não concorda com o absurdo de uma dama poder macular sua elegância com um embrulho daqueles... Mas ela insistiu e ele acabou concordando, sabe Deus como... Depois, afastou-se do olhar da senhora, de modo a não rir, talvez sem querer.


- “Queira chegar um pouco para trás, por obséquio... um pouquinho mais” – a voz do cobrador comandando, monótona, o pessoal em pé. Chegou, foi chegando... até as proximidades do último banco. Lá, um amigo fez clássico sinal de que “apertando dá!" Sentou-se.


Iniciaram, daí, memorável discussão:

- Amanhã, meu velho, te mostro: 3 X 1, vais ver. Com aquele "frangueiro" no teu time, não deixo por menos.

- "Frangueiro"? Uma... Seu... Aposto mil cruzeiros!

- Fechado!


Os xingamentos continuaram numa desenvoltura somente possível entre dois “rapazinas” por futebol, até que o ônibus chegasse ao bairro. Desceram aos trambolhões, ali mesmo, pela porta traseira. Havia entre eles uma secreta, mas controlada vontade de meter a mão na cara do outro... E ainda discutiram cerca de meia hora, no sol causticante, como dois imbecis.


Depois, procurou caminho de casa, ruminando aquela história de "frangueiro", atravessada no seu orgulho clubístico. Observaram-lhe:

- Que cara... Um beijo dá. Deu.

- Compraste?

- Pois é, apostei mil cruzeiros; ele vai ver só...

- Apostou o que, meu bem? Estou perguntando se compraste – e fez um gesto específico.


No que pôde dizer, correr e pensar ao mesmo tempo, foi dizendo “depois te conto”, correndo como um louco e pensando: “bonito... se aquele papel rasgou..." – Pensando e correndo – "se caiu... o ruído característico... rebentou o esmalte... Um menino de casa resolve abrir, curioso... Menino é o diabo e futebol também!” – Correndo e pensando: “ridículo... com que cara vou olhar a senhora, se acontecer o pior? ...Impossível, embalagem perfeita!”


Chegou.

Ela estava na porta, solícita como sempre. Disse-lhe, risonha, que até já havia cogitado de mandar um filho levar. Podia ser algo urgente e... – Aproveitou a deixa e completou o pensamento da elegante:

- É... de certo modo. Muito obrigado, desculpe e até logo – despediu-se, após verificar a integridade do pacote: "perfeito, nenhum rasgão, nada!"


Na rua, a meia dúzia de passos daquela casa, reuniu o que lhe restou de fôlego e força, para desabafar: "- puxa, que alívio!"



*Publicado na coluna "Do Cotidiano", no jornal O Globo, em agosto de 1959.

 

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