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Lé vai com cré

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

Maria da Glória é senhora que tem casa e marido para cuidar. Para isso, faz compras nas feiras, duas vezes por semana, a exemplo do que fazem outras Marias que, como Maria Glória têm, também, marido para dar de comer, casa para arrumar e meninos para fazer barulho. Ela, apesar de tudo, não se pode queixar quanto ao último aspecto do problema, porque não tem filhos, que Deus até hoje achou (por bem ou mal?) de não lhe dar. Mas, isso não vem ao caso. Se os tivesse, Maria da Glória continuaria comparecendo à feira, do mesmo modo. Nisto, chega a ser irredutível, “dona de casa que manda empregada fazer compras, na atual crise, de duas uma: tem dinheiro sobrando, para jogar fora, ou muita preguiça de levantar cedo”. E não há quem a convença do contrário. Nem o marido, que não entende de economia doméstica e não dá palpites em assuntos de copa e cozinha. Os conhecimentos dele, quando muito, resumem-se em não deixar quebrar a louça, na "operação enxuga pratos..."


Pois bem; ontem, Maria da Glória foi à feita, cumprindo, assim, seu rotineiro programa da semana. Diga-se de passagem: foi bem humorada, graças a Deus, mas voltou a cento e oitenta quilômetros de raiva, por obra e graça de um vendedor de alfaces.


O marido, atônito, pediu explicações. Maria da Glória desfiou os detalhes: “além de a gente ser roubada, escandalosamente, no preço, ainda é humilha, quase insultada!"


"Eu fazia questão de uma salada, hoje, à base de alface. Não a trouxe, porque o verdureiro só a vende a quem, obedientemente, comprar quiabo, que, por sua vez, é par constante do maxixe, o qual, em compensação, não pode ser vendido desacompanhado do jerimum. Pelo menos é o que diz e impõe o verdureiro! ...E eu queria somente cinco cruzeiros de alface... cinco cruzeiros de alface, nada mais.”


E Maria da Glória, quase chorando, disse cobras e lagartos do vendedor de alfaces – o que já é um consolo para ela, convenhamos.



*Publicado na coluna de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 19 de fevereiro de 1959.

 

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