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Solidariedade

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

Meu amigo é um sujeito muito bom e muito amigo de todos os seus. Ele não chega a ser um moço, que sessenta anos são um pedaço de vida considerável. Mas ninguém pode dizer que a sua aparência é a de um velho melancólico.


Meu amigo crê em Deus, na humanidade... e nos homens também – inclusive porque é dessa formula que ele consegue explicar sua sobrevivência, depois de acometido por grave doença, quando era apenas um rapaz de dezoito. Recuperou-se, de verdade, mas o mal deixou-lhe pesada herança: sua perna direita não convalesceu e meu amigo teve, de então para cá, que conduzi-la ou arrastá-la, conforme lhe permitiu a vontade divina. Apesar de tudo, não pode se queixar, principalmente porque Deus soube recompensar, permitindo-lhe uma vida cheia de lutas e de trabalho, porém transbordante de felicidade e de paz de espírito.


É certo que meu amigo continua pobre como nasceu – se é que se pode chamar de pobre a um pai que viu crescer nove filhos e nunca chorou por nenhum deles. Pelo contrario, os vê, hoje, cinco homens e quatro mulheres dignos e realizados, trabalhando, todos, para um só objetivo: proporcionar a meu amigo algo mais confortável do que lhe permite a sua aposentadoria de funcionário público. Agora, ele divide, feliz da vida, o seu tempo entre um passeio matinal, uma leitura amena ou um bete-papo inconsequente.


Pois exatamente através de uma dessas conversinhas-fiadas, meu amigo me contou que ontem ele descera na praça João Lisboa, sem programa definido. Desceu do bonde, do mesmo modo que poderia ter continuado viagem – sem preocupação de fazer isto ou aquilo. Decidiu-se afinal, quando avistou legião de mendigos que faz ponto no antigo Largo do Carmo. Sim, daria uma esmola. Teria dado, aliás, porque um deles recomendou, em voz baixa, ao companheiro: - “não pede, fulano, que ele também é aleijadinho...”


Meu amigo não se decepcionou e guardou a moeda. Sorriu até. No seu entender, solidariedade humana nunca é motivo para decepções.



*Publicado na coluna Do Cotidiano de Inaldo Goulart, em O Globo - 10/06/1959.

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