top of page

Joãozinho vai à escola

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

O pai de Joãozinho não acredita em métodos modernos de pedagogia, mas acabou concordando em que o menino frequentasse o Jardim de Infância ali da esquina. Na sua opinião, a Carta de ABC ainda é a mesma instituição sólida de todos os tempos – o fator mais decisivo na instrução de uma criança de cinco anos. Acontece que a mãe de Joãozinho tem também opinião própria sobre o assunto, e impôs o seu ponto de vista: o filho do casal seria inscrito no agora cognominado pré-primário.


A argumentação de madame, nesse particular, foi feita com objetividade e absoluto conhecimento de causa. Baseou-se, sobretudo, na experiencia da normalista que ela soube ser com categoria, até antes de Joãozinho nascer. É bom que se diga: o pai concordou, mas sob protesto, porque não pode compreender como é que um menino vai cursar colégio durante dois anos para aprender a brincar, apenas.


Esse negócio de ambientação, ajustamento social, integração ao meio, etc., etc. não passa de simples demagogia de um desocupado qualquer que arranjou bolsa de estudo nos Estados Unidos e voltou de lá com inovações e sofisticações. O certo, o lógico é menino soletrar ABC de cor e salteado, o mais cedo possível. Assim foi educado e nunca se deu mal. Madame, entretanto, ganhou a partida e Joãozinho foi matriculado no Jardim, com todas as normas de estilo.


Faz uma semana que o garoto compareceu à primeira aula, às 11 horas, peitinho cheio de satisfação, distribuindo beijos a granel. O pai, atalhando aquela avalanche de alegria, pediu um relatório circunstanciado de suas atividades na escola. A resposta veio em poucas palavras:

-“Tomei sorvete e toquei tambô com a fessora. Ela emprestou um...”


A mae de Joãozinho olha o esposo carrancudo e ensaia sonora gargalhada. Este torce o nariz, apanha o paletó e sai a caminho da repartição, mas ainda ouve, à porta, uma recomendação solene:

- "Papai, a fessora disse pá você compá um tambô pá mim também!"



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 11 de março de 1959.

Comentários


bottom of page