Saci do asfalto

É possível que ele se chame Pedro, José ou Raimundo. E, ainda, que seu apelido de família tenha origem na dignidade de um Rodrigues, de um Silva – qualquer coisa, enfim. No entanto, para quem o observava, com interesse e compreensão, aquele garoto de oito anos presumíveis, que se serve de uma perna de pau, porque a outra que Deus lhe deu, um coletivo de muitas toneladas amputou para sempre, é uma criança como bem poucas.
Dir-se-ia mesmo tratar-se de um menino-homem. Por isso, se o leitor permitir, eu o cognominarei Grande-Homem, daqui linhas abaixo. Direi inclusive que jamais um cidadão tão pequeno impressionou-me tanto. Mas falarei sobre o meu herói apenas como personagem de rua, porque a vida privada de Grande Homem é assunto que não me entusiasma. Nem ao próprio, talvez.
Profissão: mendigo. Idade, cerca de oito anos, conforme foi dito antes. Especialidade: cobrança extraoficial de ônibus estacionados. Opera assessorado por uma irmãzinha que ninguém procura saber se é mais nova ou mais velha do que Grande-Homem. Ela é criança também. Basta isso, sua existência é demasiado cruel para ser convencionada ou padronizada.
Ambos – cada qual com tarefa preestabelecida – fazem o “serviço”, sem arrebatamentos, quase frios, mas decididos. E operam assim: Grande-Homem, após subir os poucos degraus do ônibus, entrega a muleta à sua assistente, que, com um olhar qualquer, passa a observar o irmão de uma perna só. Este, pulando, equilibrando-se de banco em banco, vai recebendo as prestações de uma dívida que a sociedade não pode ou não quer pagar à vista.
A primeira vez que nos encontramos no corredor de um Mercedes-Benz, eu, meio assustado, quis segurar aquele "Saci do Asfalto", mas fui fuzilado por dois olhos faiscantes de amor próprio: “- deixa que eu sou macho!” Compreendi o drama de Grande-Homem – alguém ou alguma circunstância velada, inconfessável, ou lá o que seja, contratou os serviços de um menino que pode ser tudo na vida, menos um mendigo convicto.
Insultei o meu herói com duzentos miseráveis e inexpressivos cruzeiros velhos, que ele guardou, displicente, no bolso da calça. Não ouvi o clássico Deus-te-pague nem mesmo um muito obrigado qualquer.
Vai daí, nunca me senti mais feliz depois de uma esmola...
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 17 de maio de 1959.



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