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O dia da renúncia

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 18 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

Aquele 31 de janeiro representava para Augusto Feliciano de Almeida o marco de uma vitória memorável. Nesta data, ele assumiria finalmente o cargo de Prefeito Municipal de sua cidade, após movimentada campanha política, disputada palmo a palmo, durante meses. Dir-se-ia a maior e mais sensacional de quantas se realizaram até ali, motivo por que o contentamento do candidato vitorioso ultrapassava os limites do normal, fazendo-o todo sorrisos e gentilezas, até mesmo para com os criados da família.


E enquanto dava os últimos retoques na elegância, deveras impressionante, da casaca especialmente confeccionada para o grande acontecimento, Augusto Feliciano - o Feliciano de Almeida da propaganda eleitoral - foi recordando os principais lances e etapas da luta, que apresentou um detalhe inédito na história política da Comuna.


Sua plataforma, conquanto pobre de palavreado pomposo, abordou 3 pontos capitais para interesses da população - transporte, energia e alimentação - sempre protelados, num descaso criminoso, pelas administrações anteriores. Augusto Feliciano prometera resolvê-los, naquela ordem, ao fim do 1o., 2o. e 3o. anos do quatriênio, para o que empenhou sua palavra de honra de como se demitiria a 31 do primeiro dezembro que não assinalasse o fim de um dos cruciantes problemas. Deste modo, os anos deixaram de ser números para figurarem no calendário do então candidato como o ano da Energia, o ano dos Transportes e o ano da Alimentação.


Promessas assim levariam qualquer pessoa à vitória; por isso o homem ali estava, frente ao espelho, preparando-se para as solenidades da posse.


Depois de prestado o juramento de praxe, perante a mesa da Câmara, e debaixo de calorosos aplausos, o novo Prefeito iniciou vibrante discurso, quando teve oportunidade de ratificar que renunciaria a 31 de dezembro, caso - naquele mesmo ano - a cidade não contasse com apreciável frota de ônibus, de maneira a liquidar definitivamente o fantasma das filas. Travaria, em seguida, a batalha da Energia, etc. etc., sempre fazendo questão de acentuar seu propósito de se demitir em casso de fracasso.


Os aplausos foram tão copiosos que Feliciano de Almeida se emocionou com as próprias palavras, confessando depois a alguns amigos e admiradores ter sido aquele o momento mais bonito de sua vida.


A estreia do Prefeito era realmente de primeira grandeza, e o tempo transcorreu. Na véspera de ano-novo seguinte, a municipalidade convidou o povo a participar do tradicional baile de 31 de dezembro, ocasião em que o "senhor governador da cidade" leria importante oração sobre o ano um da nova administração.


O problema transporte fôra realmente resolvido, com a aquisição de vários coletivos modernos e espaçosos, feita pela prefeitura.


A orquestra iniciou o reveillon para interrompê-lo às 23h30, hora destinada ao discurso do Prefeito, o qual, aplaudido até por alguns políticos da oposição, foi encerrado poucos segundos antes da meia-noite: portanto, quando os músicos executaram os primeiros acordes do hino nacional! - Era de se pensar que o bem sucedido Augusto Feliciano cronometrara antecipadamente o discurso, de modo a arranjar esse final apoteótico.


***


A história se repetiu ainda no segundo ano, quando o Prefeito, obtendo empréstimo na Caixa Econômica, instalou potente usina de eletricidade, realizando, assim, a segunda parte do seu programa. Desta vez, Augusto Feliciano fez questão de promover festa mais concorrida do que a anterior. Ei-lo com discurso cronometrado, hino nacional, aplausos e tudo mais, naquele segundo 31 de dezembro, brilhando em toda a linha...


Não havia dúvida, pois, que o Prefeito ganharia a batalha do ele classificava de alimentação farta e barata, em seu terceiro ano. Todavia, o problema se apresentava com tamanha complexidade, que o povo da cidade, até ali incondicionalmente ao lado do chefe municipal, passou a ler mais atentamente os artigos publicados pelos jornais da oposição. Estes apostavam tudo na derrota de Augusto Feliciano, chegando ao cúmulo de parabenizar o Vice-Prefeito, que (a esta altura) já ia alimentando suas esperançazinhas pelo 31 de dezembro, cada vez mais próximo.


"O senhor Augusto Feliciano de Almeida empenhou sua palavra de honra de como renunciaria, caso fracasse, motivo pelo qual o Vice deve preparar-se a assumir o Governo da cidade, no fim do ano" - arengavam os escribas do contra.


Para tristeza do Prefeito, os meses se escoavam, sem que ele pudesse resolver o problema, apesar de mil e um esforços neste sentido. E o 31 fatídico chegou, para tristeza do Prefeito Feliciano de Almeida, derrotado que foi na chamada Batalha da Alimentação.


O tradicional baile de fim de ano contou, desta feita, com afluência nunca dantes registrada. Centenas de pessoas se movimentavam pelos salões da Prefeitura à espera do discurso-renúncia. O Vice era todo amabilidades, conquanto não abordasse o assunto a quem o insinuasse; demonstrava, apesar disso, grande contentamento, à proporção que os minutos passavam.


Sentado num canto, rodeado apenas de parentes, Augusto Feliciano ia sorvendo lentamente seu guaraná. Consultava o relógio sem revelar, todavia, maiores preocupações. Quando finalmente se dirigiu à tribuna de honra, ninguém duvidou de que, daí a instantes, seria iniciado o discurso ansiosamente esperado.


Alguém reparou nos ponteiros que marcavam 23h45. Parece que o prefeito se atrasara, desta vez.


Os primeiros segundos que antecederam às palavras iniciais do orador transcorreram debaixo de tão rigoroso silêncio, que até uma mosca seria ouvida, caso se aventurasse num vôo picado por aqueles salões.


Primeiramente, o "Governador da Cidade" falou sobre os dois bem sucedidos anos de sua administração, das vitórias alcançadas e dos benefícios advindos para a coletividade, abordando depois aquilo que teria sido - segundo suas próprias palavras - mais um triunfo, caso fatores diversos não influíssem de maneira desastrosa.


Em seguida, leu com voz compassada, porém sem grande emoção:


-O Prefeito Municipal que empenhou sua palavra de como renunciaria a 31 de dezembro, decide passar o exercício do cargo ao senhor... (e o orador dirigiu prolongado olhar ao grande relógio que, lá do alto da parede, anunciava os primeiros minutos do novo ano)...


-..."Ao senhor" - disse eu ao mesmo momento - "Augusto Feliciano de Almeida, que resolveu, a custo de muito trabalho e dedicação, dois grandes problemas deste povo! Por isso, encontra-se no início do ano, perfeitamente desobrigado do compromisso assumido e, mais do que ninguém - é forçoso dizer -, credenciado a enfrentar os próximos 365 dias. Tenho dito."


Talvez seja melhor que não se queira saber, agora, a respeito das reações do Vice frustrado ou de qualquer outra pessoa presente àquela festa. Ganharemos mais, muito mais mesmo, se procurarmos tão somente lembrar-nos, como bons brasileiros, dos acordes do hino nacional, que a orquestra executou naqueles salões.



*Publicado na Revista do Banco do Brasil, em 1961.

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