Pai de moço-problema
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Alguém que se diz pai de moço-problema, perguntou-me se eu vi, no noticiário da semana, o depoimento de um filho do pseudo coronel Manes, vazado em termos contrários ao próprio genitor.
Não li, nada sei a respeito, e muito pouco me interessei pelo assunto.
Meu interlocutor, meio sobre o perplexo e o abatido, resolveu completar a informação, demonstrando, pari passu, não entender muito bem o porquê de minha ignorância em matéria tão veiculada?
- Então, você não sabe que ele falou não passar o pai de um reles ladrão?
Até aí, eu soube ou li – não faz muita diferença – através das manchetes-murais, que as bancas de jornal nos enfiam bem no fundo dos sentidos. E foi só. Não me interessei pelo corpo da noticia – o acontecimento propriamente dito – mas nem por isso fiquei chocado com o parricídio moral que, deliberadamente ou não, pretendeu o jovem Manes.
Chocar por que e para quê?
Em primeiro lugar, desconheço quem seja Manes, o que fez e que atitudes ou convicções o tornaram alvo de caçada política-policial. Casos como o seu constituem, hoje, o trivial, sem grande nem especial significação para quem não procura, como muitos iguais a mim, inteirar-se do dia a dia revolucionário-político-policial-militar de um Brasil em luta aberta contra a endemia do subdesenvolvimento.
Para um homem acomodado, sem desejos inconfessáveis de participar das decisões de uma Nação em busca do melhor, resta – louvado seja Deus – a legítima ambição de esperar que os responsáveis por aquelas decisões errem pouco...
Desse modo, não tenho, em realidade, nenhum segundo lugar para enumerar como, em princípio, eu me propus. Admitido esse raciocínio, tudo mais seria irrelevante, permanecendo, apenas, o affaire Manes Júnior como objeto de meus considerandos, necessariamente sutis, porque – é bom lembrar – eu respondia a um pai de moço-problema.
- Pois bem, meu velho – arrisquei a conclusão – aceitando-se a premissa de que manes foi ou continua sendo mau, fique tranquilo com uma verdade, dentre outras: qualquer que venha a ser a condenação para o possível criminoso, juiz algum que se atribua o dever de julgá-lo seria capaz de imputar-lhe pena maior que o "destino-onifuturo" pareceu reservar ao acusado: pai de filho pior que ele próprio.
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em março de 1960.



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