O Palito
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 4 min de leitura
Obter o cargo de sub-coletor de rendas representava, para Pedro Felix, tudo quanto sua ambição de político vinha exigindo, há muito tempo. Mais um pouco, até: era sua consagração definitiva como líder absoluto daquela vila.
A bem dizer, a última eleição municipal fôra mais difícil, trabalhosa, cheia de incidentes e sobretudo dispendiosa. Mas a vitória sorrira finalmente, possibilitando, desse modo, ao homem pleitear o honroso posto - espécie de prêmio oferecido pelo Coronel Jonas Albuquerque (chefe supremo da região), em caso de sucesso do partido.
Aconteceu, entretanto, que a sub-coletoria deixou de ser "coisa líquida e certa", porque um sujeitinho invejoso e oportunista resolveu, nos últimos dias da campanha, meter-se a cabo eleitoral, visando a abalar as convicções do Coronel sobre a liderança de Pedro Felix. Este não queria menosprezar as possibilidades do intruso, dado que ambos haviam obtido o máximo que se poderia apresentar como credencial de prestígio da vila: Jonas Albuquerque era compadre dos dois. Urgia, portanto, usar a cabeça, e com muita inteligência, para afastar o rival do páreo, pois era evidente que o tal desejava também ser nomeado sub-coletor de rendas.
Depois de muito pensar, Pedro Felix encontrou a solução ideal para o problema: mandaria, à sede do município, a filha Isaltina - agora com quinze anos - em visita ao padrinho poderoso. Para maior garantia contra a timidez da mocinha, sempre embaraçada nessas ocasiões, sua esposa acompanharia a menina. As mulheres resolvem situações difíceis melhor do que qualquer marmanjo - raciocinou Pedro Félix.
***
A casa do Coronel vivia em festas, os 365 dias do ano. Ali, os banquetes se sucediam em número cada vez maior, desde que um político da capital andou discursando e o apontando, desse dia em diante, como "o mais completo anfitrião do interior do estado". Por isso, a vaidade do elogiado ia alimentando o estômago daqueles que, se recebidos em sua casa, eram logo considerados a tomar parte à grande mesa.
-Pois é, minha filha, tu vais à cidade passar uns dias com teu padrinho - decidiu Pedro Félix. Tua mãe irá contigo, portanto não há necessidade de ficares encabulada. Ela dirá o que convém ou não. Só te peço muita atenção ao sentares à mesa. O Coronel, de tempo em tempos para cá, vem dando muita importância a isto. Já sabes comer bem de talher, não é? Em todo caso, se tiveres alguma dúvida, presta atenção no que os outros fazem. Muito fácil, não é mesmo?
E assim Pedro Felix concluiu aquele rosário de recomendações, sem esquecer, todavia, de instruir convenientemente a cara-metade sobre a importância de abordar o assunto "nomeação", na primeira oportunidade que o compadre Jonas oferecesse.
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Na chegada de mãe e filha, o que mais impressionou o Coronel foi o desenvolvimento físico desta última.
-Então, a menina de ontem transformou-se na moça forte e bonita de hoje? Gostaria de mandar educá-la. Que achas, comadre?
-Se o compadre quiser, Pedro aprova, tenho certeza! - Foi a resposta, quase tímida.
***
Chegara, afinal, o grande momento para Isaltina, aquele em que, pela primeira vez, havia de sentar-se à mesa do padrinho. Correu à vista, como a sondar o ambiente. Tudo aparentemente normal. Pratos e mais pratos; apesar disso, a nenhum desconhecia. Copos, talheres, colheres – nem mais nem menos. Talvez papai tenha exagerado um pouco nas recomendações – pensou a mocinha com seus botões.
Uma coisa, entretanto, despertou a atenção de Isaltina: para que serviria aquele jarrinho, bem pequeno mesmo, cheio de uns pauzinhos brancos, lá no canto da mesa? Nesta altura, não seria mais possível interrogar sua mãe a respeito, todos naturalmente ouviriam a indiscrição. Além do mais, Pedro Felix havia recomendado que, em caso de dúvida, ela deveria observar os circunstantes. Alguém usaria “aquilo” e então tudo estaria esclarecido...
Para alegria de Isaltina, após o almoço propriamente dito, e antes mesmo da sobremesa, o filho mais velho do Coronel quebrou o mistério, apanhando um dos tais pauzinhos. Em seguida, levou-o à boca. A jovem sentiu seu coração estalar de satisfação. Estava claro que a finalidade daquilo era limpar os dentes. A única diferença estava em que, na sua casa, todo mundo se servia de talos de palha.
- Ora veja só, eu bancando a tola – refletiu aliviada de tão grande angústia, e apanhou um também, no paliteiro, agora bem próximo a si.
- Moça, por favor, me entregue o palito! – Ouviu-se lá da cabeceira da mesa, a voz do Coronel Jonas. Isaltina estremeceu ante àquela ordem inesperada, relutou um pouco, mas não viu outra saída senão encarar o padrinho que, com o braço estendido, aguardava os acontecimentos.
Um tanto trêmula, levou a mão direita aos lábios, retirou o palito, oferecendo-o, em seguida, ao Coronel.
- Moça do diabo, quem foi que lhe ensinou isto? – explodiu Jonas Albuquerque, chefe municipal e o maior anfitrião de todo o interior do estado. E o silêncio caiu pesado sobre aquela mesa, antes tão alegre e festiva.
***
Voltar para casa seria o mínimo. Enfrentar Pedro Felix, que aguardava ansioso a noticia de sua nomeação para sub-coletor de rendas, como resultado – quem sabe? – daquela visita, passou a ser o tormento de mãe e filha, na triste e longa viagem de volta. O jeito seria contar-lhe o sucedido e sem muito rodeio. Assim foi feito.
- Então quer dizer que tu, minha filha, botaste tudo a perder? – recostou-se Pedro Felix a uma parede, sentindo que as pernas falhavam ante ao impacto das más novas. E depois de muito pensar, num silêncio quase trágico, que ainda mais encheu de sombras aqueles dois corações amargurados, disparou:
- Por que você, mulher de Deus, não tomou o maldito palito da mão de sua filha, passando ao Coronel, depois de limpá-lo na toalha da mesa???
Perdi tudo, não tem remédio...

Publicado na coluna de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 18 de janeiro de 1959.



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