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O casamento de Roberto

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 6 min de leitura

Em essência, o noivado de Roberto era como outro qualquer: um rapaz conhece uma moça, passa a cortejá-la, os pais desta tomam conhecimento e aprovam o namoro, os tempos passam – tudo na mais perfeita rotina que conduz fatalmente ao pedido:

- Pois é, senhor, cheguei à conclusão de que sua filha é minha eleita, a mulher com quem desejo casar-me.


Para Roberto, entretanto, a situação não era tão simples assim. Pedir oficialmente a mão de Lucinda, sua namorada de quase dez meses de felicidades, representava o máximo, o passo mais importante de sua vida. Amava a namorada com todas as forças de seu coração, num arrebatamento, numa paixão praticamente incontida – dessas que, hoje em dia, são possíveis apenas em tela de cinema.


Já, de Lucinda, não se podia dizer o mesmo. O noivado, para si, isto é, para um caráter egocêntrico e calculista como o seu, significava, tão somente, que, depois do pedido, o casamento passaria a ser coisa definitiva, concreta. Na realidade, gostava de Roberto, que sempre se lhe afigurou um bom moço, decente, cordato e, porque não dizer? – inteligente, até. Mas, isso não era tudo, não se constituía o principal objetivo de Lucinda. Acima da amizade que Roberto lhe tivesse ou que ela pudesse ter pelo rapaz, estavam seus trinta anos de mulher amadurecida, que não se conformavam ante a perspectiva de morrer solteira. Dir-se-ia que Lucinda encarava o noivo apenas como o homem que se dispunha a desposá-la. Amor parecia detalhe secundário. Se viesse depois, melhor para ela, melhor para ambos – contanto que o casamento fosse realizado dentro do menor prazo possível.


Quanto aos pais de Lucinda, o noivado não apresentava nada de excepcional. Reconheciam em Roberto um bom rapaz, digno, mas apesar disso, sem grande futuro e, o que é pior, com uma situação que não permitia pensar em casamento, ainda naquele ano. Por isso, Roberto foi objetivo, depois que obteve o consentimento do pai de Lucinda, para o noivado:

- Fico sensibilizado com a sua aprovação. Agora, aproveito a oportunidade para comunicar ao senhor que a minha posição na firma em que trabalho será definitivamente melhorada, dentro de algum tempo mais. O diretor-gerente prometeu-me uma promoção, aumento de salário, etc. Logo que esteja tudo regularizado, marcarei o casamento.


O velho não viu alternativa: de um lado a idade da filha e seu natural desejo de casar-se, de não ficar solteira. De outro, as qualidades do rapaz, que além de tudo era um tipo simpático e atencioso. A situação financeira de Roberto, afinal de contas, não era problema tão grave assim, que diabo! O rapaz tinha apenas 32 anos, um jovem, portanto, capaz de vencer, de triunfar na vida.


E o noivado foi oficialmente confirmado, através de trocas de alianças, abraços e brindes.


***


Decorridos dois meses de noivado, Roberto passou a observar que Lucinda não era mais aquela Lucinda dos tempos de namoro sem compromisso: calma, ponderada e muitas vezes arredia aos carinhos, aos arrebatamentos do rapaz.


A noiva deu para falar no casamento, com uma insistência que já estava ficando intolerável. Lucinda não desconhecia os planos de Roberto, as promessas do diretor-gerente da firma em que o rapaz trabalhava; sabia perfeitamente que Roberto não tinha condições para marcar casamento assim, sem mais nem menos. Mas continuava insistindo...


- Sabe, Roberto, esse negócio de noivado muito demorado dá o que falar, não me agrada. Se a gente vai ficar esperando melhor sua situação... fica dificil...


- Mas, Lucinda, foi esse o combinado, seu pai aprovou, e você mesma não teve objeções a fazer.


Roberto ia argumentando como podia...


- Sim, naquela altura não ficava bem eu objetar, principalmente porque estávamos em presença de meu pai. Mas, agora, você compreende, sou sua noiva, posso exigir alguma coisa, não é?


E Lucinda ia exigindo, dia após dia, numa lenga-lenga absurda de reclamações incabíveis. Roberto controlava-se, bancava o firme, mas, nem por isso, deixava de cultivar suas aflições, sua naturais preocupações.


De uma feita, Lucinda não teve dúvida em abordar o noivo, mais objetivamente:

- Faço uma sugestão: você fala com papai e pede seu consentimento para a gente morar aqui mesmo, em nossa casa. Assim as despesas ficarão menores.


O noivo encarando a noiva (evidentemente pouco escrupulosa) tentou explicar que aquilo era uma solução que atentava contra sua vaidade de homem, de rapaz trabalhador e esforçado.


- Sabe, Lucinda, desse modo você me decepciona e até abala a amizade que lhe devoto. Não farei semelhante proposta a seu pai!


A moça fez um riso amarelo, ao fim do qual arremeteu com ironia:

- Abalado, coisa nenhuma, você é doente por mim... e não vai me deixar.


Ele voltaria no dia seguinte, certamente, mas, daí por diante, procuraria provar à noiva que ele não era nenhum “doente” e sim ponderado, um sensato que realmente já começava a aborrecer-se, de tanto absurdo junto. Pensando francamente, ele já estava aborrecido da própria noiva, daquela morbidez pelo casamento. "Doente era ela, doente era ela" – repetia baixinho, o pobre rapaz, durante o trajeto para sua residência.


O dia seguinte foi pior até. Lucinda não esperou pela visita costumeira do noivo, preferindo telefonar-lhe logo cedo, quando mal Roberto chegara ao escritório para trabalhar.

- Bom dia, Roberto. Tenho outra proposta a fazer-lhe. Já que você não quer falar com papai, eu pensei noutra solução. Lucinda fez uma pausa, como que esperando pela reação do noivo. Este, calmamente, sem se perturbar, não disse palavra. E Lucinda continuou:


- Antes, fica esclarecido desde já, que se você não aceitar, o noivado está liquidado.

Roberto, mais calmo ainda, permaneceu mudo.


- Nós vamos fugir, isto é, nós vamos passar dois dias fora da cidade e depois voltar para casar... e ficar morando aqui em minha casa, compreende? Caso consumado, ouviu? Casamento no duro, entende?


Isso já era demais, uma louca – pensou Roberto. O jeito seria romper o compromisso e mandar todo mundo às favas.

- Lucinda, diga-me apenas uma coisa: você perdeu o juízo?


- E você, rapaz, é ou não é homem? A frase saiu cadenciada, para fazer efeito...


Roberto mordeu o lábio inferior, num misto de raiva e de asco (cego em seus brios), ajustou bem o telefone ao ouvido e foi incisivo:

- Sou e posso provar-lhe. Sabe, Lucinda, ao invés de sua sugestão, eu proponho coisa melhor, mais prática. Não irei hoje à noite, visita-la na hora de costume. Você vai esperar-me depois da meia-noite, quando todos já estiverem dormindo, compreende?


Lucinda, do outro lado da linha, quis dizer algo, para justificar sua incompreensão, mas Roberto não deu tempo:

- Seu quarto tem janela para o lado da área livre, não é isso? Muito simples: eu salto as grades do terraço e... (o rapaz fez uma reticência muito significativa) num instante estarei com você, sem que ninguém nos veja. Facílimo, pois não? E no fim, dá tudo no mesmo: tanto faz passar dois dias fora da cidade como ficarmos uma noite aí mesmo, em sua casa...


Lucinda apanhou uma cadeira que esta próxima ao telefone, sentou-se lívida, entre incrédula e bestificada. Quis dizer “não”, mas Roberto repetiu...

- Como é que diz a mulher corajosa, disposta?


- Concordo – foi a resposta – porque duvido muito que você venha realmente. Só por isso, ouviu?


***


O relógio de pulso de Roberto assinalava 23 horas. Apesar disso, continuava, impertinente, no espírito do rapaz, a lhe entorpecer o cérebro, aquele “é ou não é homem?” - dito pelo telefone, às cinco da manhã (estava entorpecido, como qualquer menino contrariado que se torna violento, e tudo justificava suas ações...) “Eu mostro pra ela... eu mostro pra ela" – resmungava Roberto, enquanto vestia sua camisa esporte, preparando-se, então, para a "grande aventura” – "Eu mostro pra ela..."


Vite e três horas e cinquenta minutos. Roberto se aproximava da casa da noiva, o passo lento, compassado, sem pressa. Rua deserta, silêncio absoluto. Longe, muito longe, em intervalos regulares, um apito de guarda-noturno. O rapaz não sabia ao certo o que pensar sobre o futuro ou a respeito das consequências do que pudesse acontecer depois de tudo. Fosse como fosse, ali estava e cumpriria sua “promessa”.


Roberto atravessou a rua, subiu a calçada. Calculou apressadamente a altura do murete: quase nada – metro e meio, se tanto! Soltou a camisa até então presa pelo cinto (Roberto procurava liberdade total de movimentos) e preparou o salto... mas foi detido, energicamente, pelo braço:

- Que pensa que vai fazer aí, seu patife?

E o policial continuou, ameaçadoramente:

- Estava observando seus movimentos, dali da esquina. Esteja preso!


Roberto, quase não acreditando no que seus ouvidos escutavam, fitou o interlocutor, desfez o salto, ajeitou a camisa e disse em tom de súplica:

- Pelo amor de Deus, homem, não sou um ladrão!


- Essa é boa: se não é mesmo, o que ia fazer lá dentro? Responda ou acompanhe-me até à Delegacia. Responda!


- "Não posso... não posso" – o pobre rapaz contorcia-se todo, gaguejava, procurando uma explicação, uma saída... Mas, explicar como, se não era possível? Dizer ao policial que Lucinda o estava esperando, que seu objetivo naquela casa era outro, bem outro? E se o guarda resolvesse escandalizar, acordar os pais de Lucinda? O melhor mesmo seria concordar com o pior, ou seja, acompanhar o policial.


Roberto, então (sem ego), respirou fundo e seguiu resignado, com passos inesperados, rumo à Delegacia de Polícia...



*Publicado na coluna "Letras e Artes" do Diário da Manhã, em 27 de janeiro de 1959.

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