No dia dos namorados
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Problema difícil o daquele jovem de dezoito anos. Avalie o leitor que ele ainda não trabalha e hoje é dia de comprar presente para a namorada. O jovem vai até a presença do seu pai e ouve do velho um não categórico:
- Dinheiro do meu ordenado dá mal para comer, seu Dom Juan, e você vem com essa de presente para uma amiguinha... Arranje-se!
O rapaz, até aqui, tem vivido sob o regime de mesadas semanais, muito pequenas – uma espécie de "cruzeiros em conta gotas" – praticamente absorvidas pelo cigarro Hollywood. Quase não sobra, sequer, o do cinema aos domingos. E pobre dele, se Lourdinha não compreendesse a situação, preferindo espera-lo, sentada pacientemente, no hall do cinema, em vez de comparecer de corpo presente à bilheteria, ao lado do seu príncipe.
Mas Lourdinha colabora, ou por outra, tem colaborado sempre, dando a impressão de que isso de entrar primeiro cinema é questão de simples comodidade ou hábito. Portanto, é justo que o jovem esteja apreensivo e queira recompensar a eleita, ao menos no dia de hoje.
Alguém sugere que ele resolva o problema comprando um cartão postal perfumado – coisa aí pela casa de trinca cruzeiros, no máximo. O jovem não acredita em namoro na base de frases escritas, mais cretinas do que poéticas, e refuga a lembrança. Ora, cartão postal... Isso é lá presente que se dê a uma namorada de vinte e quatro quilates?!
Outro colega procura lembrar ao jovem que talvez Lourdinha não ligue à omissão, e até entenda que essa história de dia dos namorados é pura invencionice de comerciante ambicioso – uma promoção comercial em termos líricos. Mas o jovem continua apreensivo – quase angustiado, sem encontrar saída para o seu caso, e chega a pensar na possibilidade de comprar fiado – usar o crédito. O diabo é que ele ainda não tem crédito em parte alguma...
O colega volta à carga, desta vez insinuando que um beijo especial – quem sabe? Um beijo espiritual, caprichado, não é? O rapaz fuzila um olhar de poucos amigos, assim como quem diz ou quer dizer “você precisa respeitar um pouco mais minha futura esposa”, porém permanece calado, apesar de tudo.
Problema difícil o daquele jovem de dezoito anos. Ainda não trabalha, e hoje é dia de comprar presente para a namorada...
*Publicado na coluna "Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 12 de junho de 1959.



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