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Mariazinha do salário mínimo

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Se eu não conhecesse Mariazinha, e a sua família e alguns dos seus problemas, ainda assim seria capaz de medir, no semblante, a intensidade do drama que ela vive. Seus olhos dizem tudo: sempre tristes e fixos em um ponto que a própria retina de Mariazinha não consegue encontrar. Não sabe mais sorrir, como antes, aquele sorriso meigo, despreocupado, de adolescente desinibida, e quase não fala – apenas o necessário para dizer que esta ou aquela mercadoria custa tanto ou quanto o seu patrão mandou marcar na etiqueta.


É que Mariazinha trabalha pelo, cada vez mais caro, pão-de-cada-dia – a exemplo de milhares de moças de sua idade.


Verdade que se viu obriga a isso, apesar de preferir estudar e até formar-se em algo assim como filosofia, medicina, isto é, uma situação mais edificante. Porém, a realidade configurou-se prosaica: nada de colégios ou títulos, e sim irmãos menores para sustentar, mãe viúva de marido vivo para ajudar, zelar, prestigiar – além de muita fome na família.


Vai daí, alguém falou com alguém e Mariazinha foi contratada para vender perfumes & congêneres. Condições: salário-mínimo... Apenas no papel, para efeito de fiscalização.

O patrão pondera que "as coisas estão difíceis"; que é muito melhor uma reduçãozinha de cinquenta por cento na tabela oficial, porque ruim mesmo é desemprego em massa – lugar-comum que ele, o chefe, parece achar mais fácil e sonoro repetir a cada instante, do que combater com decisão.


A jovem aceita (que jeito?) e começa o trabalho das oito horas diárias, duas de descanso – se é que se pode chamar de descanso àquele corre-corre de apanha ônibus, forma fila, olha o trânsito, muito cuidado, e já é hora de voltar...


Mariazinha-do-salário-mínimo recebeu, há dias, seu primeiro ordenado, deduzidos naturalmente os descontos regulamentares e os mais (que se sabe a respeito) dos que não são regulamentares. Quis comunicar ao patrão que o miserável saldo não daria, sequer, para pagar a conta do merceeiro, mas não chegou a dizer palavra, dado que o comerciante pareceu compreender a ansiedade de Mariazinha – tão nova e tão cheia de problemas – e fez uma proposta que a jovem não soube, nem mesmo pôde repelir na ocasião.


Segundo ele, a auxiliar receberá, no próximo mês, o salário integral, dependendo apenas dela própria – do seu rosto bonito, dos seus olhos sonhadores, do seu corpo de mulher bonita...


Mariazinha disse a uma confidente e amiga de infância que vai resistir à insinuação do chefe para uma vida mais folgada, menos angustiada. Em todo caso, eu me pergunto: –resistirá ela para sempre?



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em setembro de 1959.

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