Filha de milionário
- Inaldo Goulart

- 18 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de abr.
Com a sorte que Deus lhe deu de ter havido nascido em berço de outro, Alberto Pereira ia levando uma vidinha fácil e despreocupada, de viagens à Europa, caçadas na África e fins de semana nos Estados Unidos. Seus hábitos estavam de tal maneira influenciados por esse sistema, que ele ele já se via como estrangeiro, quando casualmente permanecia mais de dois meses em solo pátrio.
Alberto somente vestia, calçava ou fumava produto importado, não escondendo enorme desprezo por tudo quanto exibisse etiqueta nacional. A indústria brasileira causava-lhe repulsa, a ponto de não aceitar nem mesmo um simples pente para cabelo "made in Brazil", alegando que arranhava o couro cabeludo. E quatro palavras suas liquidavam qualquer entusiasmo ou verde-amarelismo menos decidido, se alguém lhe falasse sobre algo novo e vistoso:
- Artigo inferior! É nacional...
***
Não causou, portanto, admiração a ninguém o fato de Alberto Pereira voltar de Paris casado com uma francesa, após sua última viagem à Europa. As moças de Copacabana ou Ipanema eram demasiado brasileiras para merecerem a preferência do milionário - um produto nacional, enfim.
Os pais do recém-casado, que nunca aplaudiram as tolices do filho sofisticado, mostraram a princípio desagrado, ante à novidade do casamento inesperado, mas acabaram aceitando aquilo como fato consumado, de vez que Alberto não parava de falar a respeito das virtudes da esposa.
Por isso, quando madame Alberto Pereira anunciou ao marido que a cegonha visitaria a família dentro de alguns meses, este, refreando um pouco o natural contentamento, alertou a esposa sobre a necessidade de procurarem um médico, a fim de ser iniciado, incontinente, o atendimento pré-natal.
- Voaremos até os Estados Unidos na próxima semana, pois teremos lá os melhores especialistas - acrescentou o futuro pai. Entretanto, depois da observação de que "não seria necessário viajar, porque ali mesmo havia tantos facultativos competentes", Alberto acabou cedendo: - se você assume a responsabilidade, seja feita a sua vontade! E a esposa abriu os lábios num sorriso meigo, como que a tranquilizar o marido inquieto.
- Vai dar tudo certinho, não se preocupe! Sua mãe garante que o médico da família, o mesmo que ajudou você vir ao mundo, estará ao meu lado até o délivrance. Não há mesmo necessidade de especialistas estrangeiros.
A gravidez de madame foi toda ela um sem número de cuidados, um "Deus-nos-acuda" de providências, muitas vezes desnecessárias.
Chegando afinal ao grande dia, Alberto, depois de mais um dos clássicos cigarrinhos de pai nervoso, e cansado de tanto caminhar pelos corredores da maternidade, atirou-se a uma poltrona da sala de espera, no momento exato em que a enfermeira sorridente anunciou:
- Menina e muito bonita. Parabéns, senhor! Todavia, há um pequeno senão: os dedinhos da mão esquerda estão ligeiramente ligados. Coisa banal, que o médico corrigirá com bisturi brevemente.
O moço, revelando grande agitação, e antes mesmo de conhecer o rebento, exigiu a presença do facultativo. Este, que ainda determinava as últimas providências no pós-parto, apareceu somente daí a três minutos. Ato continuo, procurou tranquilizar Alberto Pereira, assegurando que resolveria, na próxima semana, aquele insignificante problema.
-Acredito, doutor; porém, estou certo de que em Nova Iorque isto não aconteceria. os recursos e a técnica americana encontram-se tão desenvolvidos que teriam verificado a tempo, através de raios X ou coisa semelhante, e é claro que, com tratamento adequado, a criança nasceria perfeita!
Para os trinta anos de profissão do velho esculápio, as palavras de Alberto Pereira - o mesmo Alberto que suas mãos ajudaram a ver a luz do dia - soaram como injustificável insulto, que só muito desaforo poderia enfrentar. No entanto, controlando-se até o ponto em que uma situação dessa ordem permite, atirou, à queima-roupa:
-É, meu caro, talvez sua filha tenha sido gerada assim por deficiência da indústria neonatal... E displicente complementou: - quem sabe, não foi isso?
Alberto Pereira, o pai angustiado, o moço que só conhecia mérito nos produtos de além-mar, o jovem que casou com uma francesa para não tomar conhecimento da existência das moças de Copacabana ou Ipanema, baixou a cabeça e dirigiu-se, afinal, ao quarto da parturiente. Calou-se, como se "amargasse" aquele produto nacional...

Publicado na coluna de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 1958.



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