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Feitiço contra feiticeiro

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Jamais alguém cuidara tanto sobre assuntos de vida alheia como aquela criaturinha de metro e meio que Deus moldou em dia de pouca inspiração e o diabo alimentou para o resto de uma existência.


Mulherzinha pérfida, no dizer de quantos a conheciam de perto, dona Gertrudes consubstanciava a maldade em figura de gente. Os vizinhos fugiam da megera como satanás da cruz. Sua fama corria longe, de modo que, até mesmo um forasteiro sempre era convenientemente advertido contra a picada da víbora. Representava ela em resumo, cinquenta anos bem vividos de intrigas e disse-me-disse.


O pior é que quando alguém tomava ares de conselheiro e se dispunha a corrigir a velhota, recebia como resposta este trocadilho barato: - "se falo como dizem, então continuarei falando como nunca disseram!"


Pois bem. Um belo dia, dona Gertrudes varou a cada do vizinho ao lado, numa arrancada alucinante e, esbaforida, foi dando a última de que, evidentemente, se constituía "o maior e mais escandaloso acontecimento presenciado pelos seus olhos".


- Vocês não podem avaliar como esta humanidade anda podre, o quanto os costumes estão pervertidos!


E, até o espanto dos circunstantes, a serpente foi desfiando os detalhes:

- "Parei para ver melhor através da porta entreaberta, e estavam os dois no mais indecoroso dos idílios. Não é possível que isso aconteça em hotel que se diz familiar, que hospeda as figuras ilustres que nos visitam..." E – dirigindo-se (agora) ao estupefato dono da casa – "O senhor, como interessado nos negócios do tal hotel, deveria apurar tão deprimente situação, em defesa, mesmo, do bom nome da terra. Isso é um absurdo, é um..."


- Muito bem, dona Gertrudes, sua vontade será satisfeita. Vou apurar tudo já e já – interrompeu o pobre homem àquela avalanche de bílis venenosa, resolução que não impediu a velhota de prosseguir arengando.


Se bem falou, melhor cumpriu. Quinze minutos depois, ei-lo de volta pensando (talvez) não mais encontrar a linguaruda. Puro engano: a velhota continuava firme e bem firme, antegozando o desfecho do caso.


- "O senhor apurou tudinho, não é assim?" – fuzilou implacável.


- "Não tive que indagar muito, porque a moça já se retirou do hotel, de vez que seus aposentos foram alugados apenas por uma noite. Segundo consta, seu objetivo é passar alguns dias em companhia de sua tia, residente nesta cidade. Trata-se de pessoa pertencente a uma família local, e como chegou de viagem um tanto fora de hora..."


- "E... que família é essa que possui semelhante membro?" Pulou dona Gertrudes. (Não havia dúvida de que a serpente preparava mais um bote).


- "Filha de uma senhora que morou aqui tempos atrás; quis, agora, a jovem surpreender sua titia que, com certeza, não a conhece mais!"


Não se sabe como as avermelhadas bochechas da velhota fecharam-se num amarelo cadavérico...


- Mas... mas, quem é esse raio de tia? – gaguejou fulminada a megera.

- A senhora, dona Gertrudes! A senhora!



*Publicado na coluna "Cotidianas", no Diário da Manhã, em 1959.



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