E o coração, doutor?
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
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Voltou do consultório médico visivelmente constrangido – assim como quem ouviu muito e não gostou de nada. O amigo quis saber sobre o motivo ou motivos de tanto mau humor. Ele foi incisivo:
- Há dias que não venho passando bem; sinto umas palpitações esquisitas e parece que meu coração vai parar de uma vez. É claro que, em tais circunstâncias, o certo é procurar-se um especialista, isto é, um cardiologista. Fui lá; o homem fez uma série de perguntas e quase nenhum exame. E além de tudo, olhou-me de um jeito maroto, para dizer, com a maior calma deste mundo:
- Você não tem nada, rapaz; procure divertir-se: cinema, futebol... Eis o remédio.
- E o coração, doutor?
O medico explodiu numa gargalhada de segundos bem contados, para arrematar irônico:
- O seu coração é tão perfeito, que até parece coração de criança; pequeno.
Ora, meu velho, você sabe que quando a gente sente algo e o médico diz, assim, à queima-roupa, que não estamos sentindo coisa alguma, nossa reação não poder boa, não é? Por isso, resolvi fazer, também, minha ironiazinha sem compromisso, e observei malicioso:
- Pequeno, doutor? Para ver: eu já guardei tanta mulher dentro dele...
Sucedeu que o médico franziu a testa e quedou-se, circunspecto, para depois entregar-me um cartão, onde se lia: Dr. Fulano – psiquiatra. Em seguida, recomendou-se lacônico:
- Procure-o; ele dará um jeito em você.
Escute, meu amigo, você que é artista, que tem sensibilidade - enfim - responda, por obséquio: será que é maluqueira ou coisa que o valha, a gente fazer um pouquinho de poesia em um consultório médico?
A resposta do amigo solicitado não foi muito clara nem serviu para tranquilizar o rapaz:
- "Não sei... Eu não entendo de medicina..."
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em agosto de 1959.



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