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Do bonito e do colorido

Foto do escritor: Inaldo Goulart
Inaldo Goulart
27 de abr.
2 min de leitura

Aconteceu um desses golpes que não derrubam estados nem desmoronam governos constituídos, mas enriquecera uma pessoa, da noite para o dia. Um golpe noutro sentido; porém um golpe, de qualquer maneira – entre aspas, se preferirem.


Não interessam, agora, os meios que possibilitaram ao autor da grande façanha deitar quase pobre e acordar milionário, porque o seu objetivo tem conteúdo humano e sobretudo atual: prosperar. Com muito dinheiro – é claro.


Dizem que o nosso herói foi, até pouco tempo, comerciante de estreita visão, sem tino comercial e pouco conceituado – comercialmente falando. Discordemos, caro leitor! Sem descortínio, ninguém chega onde Novo-Rico (chamemo-lo assim) chegou, viu e saiu vitorioso...


De resto, não há quem prove ou estabeleça por A mais B que Novo-Rico fez ou desfez, além do que ele está querendo fazer, no momento: grande e bonita casa, para sua residência particular.


O arquiteto diz que o orçamento fica em quatro milhões. Novo-Rico sorri, superior, e sugere a aplicação de algo mais. Cinco é pouco, seis é o certo. Surgem uns detalhes: quarto para hospedes, terraço espaçoso, garagem, jardim de inverno, etc. e tal. Mas, Helena, mocinha às vésperas de completar quinze anos e filha de Novo-Rico, impõe também: salão de leitura, uma biblioteca, sim senhor!


Alguém soprou aos ouvidos de Helena que é “bem” a uma jovem de sua idade falar em livros e autores. Novo-Rico ainda argumenta, tentando provar que a única literatura que faz bem de verdade não é editada em livros e sim em notas de mil cruzeiros... Helena fecha a questão e a planta da mansão vai acrescida daquela dependência.


Enquanto isso, a debutante em potencial não perde tempo e consulta o representante de uma editora do sul sobre a compra de oitocentos volumes que o arquiteto calculou para a biblioteca. O vendedor quase não controla a emoção em face do grande negócio, mas sempre encontra calma para perguntar subserviente, a Helena, a respeito de suas preferências: Machado? Bilac? Algum estrangeiro?

- Bem, depois eu me decido. Por enquanto interessa, apenas, que os livros sejam grandes, de boa encadernação e bonito colorido...



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 21 de março de 1959.

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