top of page

De como não se deve contar algo

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Trata-se de uma história muito complicada e cheia de conteúdo dramático, e tão absurdamente inverossímil que eu somente acreditei porque me foi contada por um amigo. Tenho a impressão de que, seu a assistisse com meus próprios olhos, talvez não acreditasse na legitimidade do acontecido. Porém, é preciso considerar que amigo é amigo mesmo. Ou se dá crédito no que ele diz ou não se é amigo, coisa nenhuma. Dentro desse princípio, não pode haver alternativa, sob pena de a amizade ser solapada e destruída.


Eu ainda quis mostrar ao rapaz que tudo pudesse resultar de um pouco de imaginação – da imaginação fértil que povoa a sua cabeça inteligente... ou que ele estivesse sonhando acordado. Ante à insinuação de maluqueira temporária, meu amigo reagiu, dizendo que havia loucura, realmente, mas não de sua parte. Malucos irremediáveis são os três personagens do episódio lamentável que ele presenciou, acidentalmente.


A princípio, quando eu soube que se tratava de um problema geométrico-sentimental, por isso que havia um triângulo amoroso comprometidamente atuante, fiz ver ao meu amigo que isso, hoje, é lugar comum na crônica das paixões humanas. Nada de excepcional, portanto, dentro dos padrões convencionados para as questões julgadas amorais ou imorais. Rotina, mil por cento. Errado, mas decididamente rotina.


O diabo é que, após escutar os últimos lances da narrativa, acabei concordando que havia muito de desgraçadamente original naquela história triste e sem poesia. História que me foi contada por um amigo, sob a seguinte a seguinte condição: eu teria que guarda-la comigo, para sempre. Ora, eu disse no começo destas linhas que amigo é amigo mesmo, inclusive quando é necessário guardar-se um segredo...



*Publicado na coluna "Cotidianas" de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 11 de abril de 1959.

Comentários


bottom of page