Conversa de elevador
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Apesar de morarem no mesmo andar do mesmo edifício de apartamentos, não se conheciam oficialmente; sequer trocavam um “bom dia” ou um (às vezes inconsequente) “como vai”. Olhavam-se apenas, com ou sem interesse mútuo - isso é coisa que não se pode contar nestas linhas, por motivo muito simples: ninguém sabe ao certo.
Um dia, porém, encontraram-se a sós, no elevador do prédio; e, porque ambos tivessem idêntico objetivo, aconteceu que os seus dedos se tocaram levemente quando em demanda do botão “térreo”. Do sorriso tímido com que se comunicaram para a palavra “coincidência” dita por ele, foi somente questão de dois segundos a mais.
Súbito, o elevador que já iniciara descida interrompeu a marcha, a um tempo que as lâmpadas do veiculo diminuíram de intensidade.
- A corrente baixou de voltagem... Parece que estamos entre dois andares, sem saída...
Ela aceitou a hipótese com um “é, parece”, demasiado calmo frente ao olhar angustiado que, em seguida, lançou na direção do painel de controle.
- Medo?
- Depende – Respondeu a moça, de modo vago, e apertou o sinal de alarme.
No térreo, o porteiro do edifício, tentando resolver a situação, telefonou para a central elétrica, mas recebeu como resposta um fleumático “- Azar, meu velho, é defeito para quinze minutos, no mínimo”.
Foi então que o porteiro se lembrou de caso semelhante ocorrido meses atrás, quando uma senhora do terceiro andar saiu do elevador quase morta de susto e molhada, além de tudo.
Preparou-se, resignado, esperando o pior:
- Será que vou ter que carregar gente desmaiada? – levantou o problema, um tanto apreensivo.
Sua apreensão, no entanto, desapareceu – não quinze, mas cinco minutos depois, porque o elevador chegou afinal e ninguém percebeu ambiente de tragicomédia. Pelo contrário, a jovem até que saiu muito calma, expressão serena. Disse um “boa tarde” sonoro e se dirigiu à rua, impassível.
Vai daí, o encarregado do edifício não atentou para o detalhe de que, além da moça ou mais precisamente ao lado dela, descera um homem. Este, ao sentir-se notado, procurou o espelho do hall, onde ajeitou o laço da gravata e passou a conversar com a própria imagem. Depois, apanhando o lenço, limpou, no canto da boca, um filete de sangue que brotava de ferimento feito, sem dúvida, por algo fino, assim como ponta de unha...
Então, o porteiro, observando melhor aqueles movimentos esquisitos, comentou baixo, mas zombeteiramente:
- P'ra ver, a moça desceu na maior calma deste mundo; ele é que ficou nervoso, falando sozinho... Moleirão!

*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 1965.



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