Conflito a um cruzeiro
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
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Aquela senhora de cabelos grisalhos, rosto simpático e maneiras educadas, desceu do bonde com um sorriso triunfante. Vingara-se do cobrador do veículo – o mesmo que, no dia anterior, fora grosseiríssimo, ao receber a cédula de Cr$ 50,00 que ela exibira em pagamento de sua passagem. O homenzinho poderia ter sido menos agressivo ao alegar que “o limite de troco é de Cr$ 20,00”. Mas não foi, preferindo a indelicadeza, pura e simplesmente.
Agora, nossa personagem desforrou-se, a seu modo: o malcriado passou por ela, cobrando o banco, e, ao que parece, esqueceu-se de sua pessoa. Resultado: a viagem Gonçalves-Dias/Praça-João-Lisboa ficou de graça... “Bem feito, para não se meter a engraçadinho com uma senhora respeitável!”, e a satisfação da mulher não teve limites, enquanto seus passos, céleres, procuram o outro lado da rua.
Súbito, aquela alegria – fruto, toda ela, de uma vingança barata, feita ao câmbio de um miserável cruzeiro – explode em terrível conflito de consciência. Deixar de pagar o cobrador, quando o dinheiro não se destina ao seu bolso (?) e sim ao da empresa dos bondes...
A senhora sobe a calçada, para um pouco, atordoa-se, quase desesperada – naturalmente julgando-se a mais abjeta ladra do mundo. Olha os céus e pede perdão ao Cristo das suas orações e dos seus preceitos morais. Ele perdoa mesmo, porque a senhora encontra uma solução feliz: dará o maldito cruzeiro ao primeiro mendigo que seus olhos avistarem (Jesus-bondade, Jesus-perdão, deve ter sorrido, lá de cima, refletindo talvez no fato de que, há dois mil anos, fora traído ao preço de trinta moedas, e agora perdoava, magnânimo, o mal que uma - apenas uma - causava ao espírito daquela criatura).
A senhora aproxima-se da escadaria da igreja, a procura de um pobre, mas encontra dois. Ambos lhe estendem os braços, numa súplica. Ela retira, satisfeita, um cruzeiro de sua carteira e determina, amavelmente: “cinquenta centavos para cada um!"
O clássico “Deus te pague” é dito em coro, enquanto a mulher se retira, talvez não escutando o que um dos mendigos diz, quase num sussurro: - “Diabo de esmola vagabunda...”
*Publicado na coluna de Inaldo Goulart, no Diário da Manhã, em 4 de março de 1959.



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