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Cigarros e homens

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

Fui a ele, com a mesma humildade de quem pede dinheiro emprestado. Apesar disso, não se comoveu, e até passou um pito, servindo-se de autoridade que os seus mais ou menos quarenta anos permitiam impor a uma jovem de dezessete:

- Só fuma quem pode! E tem mais: não posso compreender como um rapaz tão novo já se confessa um viciado irrecuperável. Tenha força de vontade, deixe de fumar! Estamos em guerra, tudo difícil, racionado. Aproveite!


Quis dizer a ele que essa história de cigarro é uma espécie de predestinação; que há pessoas que simplesmente não resistem ao vício; que... Mas não disse nada. Não houve jeito: paguei, sem diferença alguma, os cinquenta cruzeiros exigidos pelo maço – na época, uma quantia considerável.


Pois bem; os vinte anos que nos trouxeram até aqui, pouco contribuíram para que eu deixasse de ser uma chaminé ambulante. Continuo fumando, e se mudança ocorrer no futuro, tenho a impressão de que será para pior...


Quanto a ele, há muito que não o via. Por isso, quando o encontrei, semana passada, no balcão de uma farmácia, cheguei a me comover com seu aspecto abatido. Notei que o seu rosto, além de marcado pelo tempo e algo mais, apresentava traços de inquietação, de nervosismo. Aproximei-me e ouvi o balconista, num sacudir de ombros, falar meio reticente:

- O preço quem faz não sou eu; o remédio também não...


Ele, no limiar de um palavrão, cerrou os punhos e, não sei porque, se dirigiu a mim, agitando o papel da receita médica que, assim, me pareceu sinistra bandeira. Li o conteúdo sem ligar muito para os nomes, concentrando-me apenas nas cifras: coisa, aí, pela casa de três mil cruzeiros.


- Não pode ser – o homem bradava semi-alucinado – isto é um assalto! Meus filhos precisam... Interrompeu subitamente a frase e afastou-se, lívido, para um canto.


Compreendendo seu drama, confesso que esperei poder ajuda-lo. Nada me foi solicitado, no entanto. E, por considerar mais abjeto oferecer-se dinheiro a quem não nos pediu do que negá-lo a quem nos pediu, aguardei alguns minutos. Mas nem uma palavra ou gesto – indiferença apenas.


O nervosismo passou a ser meu. Olhei firme nos seus olhos: nada. Então, apanhei mecanicamente do bolso, o meu maço de cigarros. Ofereci um, porque – pensei – fumando, aliviaríamos a tensão. Ele aceitou, e até perguntou se poderia tirar dois. Concordei. Depois, quase um sussurro:

- "Não repare, rapaz, é que, quando eu sair daqui, não terei sequer o do cigarro. Você sabe, tudo está tão difícil..."



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em agosto de 1959.

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