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Cabeça de mulher

  • Foto do escritor: Inaldo Goulart
    Inaldo Goulart
  • 27 de abr.
  • 2 min de leitura

Se a gente olhar bem, acaba admitindo que ela talvez não tenha mais de vinte e cinco anos. A possível dúvida está em que alguns cabelos brancos começam a surgir na sua cabecinha bonita. O que, no meu entender, significa mais beleza ainda. Tanto, que seu fosse poeta, diria, no melhor dos estilos chorões, mais ou menos isto: "aqueles fios de prata até parecem homenagem da lua..." etc. etc. Porém, para felicidade do leitor disposto a seguir comigo linhas abaixo, aviso que não pretendo conduzi-lo a lugares tão comuns nem fazer poesia idiota.


A verdade é que a moça, além de bonita, mostrou, outro dia, em um salão de pintura, também possuir inteligência. Sucedeu assim:


Ela chegou, olhou de uma vez as telas expostas e perguntou, quase cantando, ao autor das mesmas:

- O senhor faz esses quadros para vender?


- Não, excelentíssima, vendo porque já estão feitos.


A resposta teve apenas um mérito: obrigar aquela criaturinha, que Deus moldou num dia de grande inspiração, a exibir maravilhoso sorriso – depois do que, os seus olhos descreveram um semicírculo, com a mesma virtuosidade de mestre Giotto. E ela observou em seguida:

- Ora, meu caro, que diferença há nisso? No fim, tudo dá na mesma, não é?


O pintor, quase extasiado diante do espírito brilhante (mas, controlando o arrebatamento), disse, cadenciado:

- Eu acho que não...


A beldade não interrompeu o sorriso irônico nem deixou de fita-lo. Ele, então, para melhor ilustrar seu argumento, não teve outro recurso, além de formar imagem, servindo-se desta obra-prima de escrita:

- Escute, prezada: quando você se decide por um rapaz, é porque ouviu dizer que ele é simpático ou porque você sentiu que o referido é realmente simpático?


Foi aí que ela se afastou um pouco – o suficiente para demonstrar seu desejo de retirar-se de uma vez – e, levantando a mão direita a uma altura razoável, fez aquele gesto universal que significa dinheiro, aqui ou na Indochina:

- Nem bonito nem simpático. Interessa apenas isto! – E continuou friccionando o polegar no indicador, para depois estourar numa gargalhada dramática. Com o outro braço acenou em despedida um adeus que o pintor, meio encabulado, não sabe (até hoje) se foi executado com a mão fechada...


Desapareceu em seguida.


Sozinho, na galeria, o criador das telas expostas resolveu contemplar sua obra. Por coincidência, deteve-se no exame de uma figura que pareceu olhá-lo com ironia. Título do quadro: “Cabeça de Mulher”.



*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 1973.

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