Assunto de amor
- Inaldo Goulart

- 27 de abr.
- 2 min de leitura
Encontraram-se casualmente numa esquina; saltitante, ela perguntou, dramatizando um pouco:
- Você viu só a ideia fabulosa do Flávio*, incluindo literatura na sua Grande Chance?
- Ótimo, não é?
- Então, está p’ra ti, que gosta de escrevinhar as suas. Mande um conto, moço!
- Não dá... falta tempo – ele respondeu, reticente, como quem pretende liquidar conversa.
Porém, ela insistiu:
- Falta de tempo é, de todas, a pior desculpa para o caso. Arranje outra!
Lá isso era verdade: ele andava sem assunto, sem vontade e até mesmo sem inspiração alguma para escrever o que quer que fosse. Procurou justificar-se, alegando que, apesar dos pesares, estava realizando outras bossas... Não bastava, pelo menos do ponto de vista de quem não acredita em quase nada que não tenha forma de crônica, conto ou romance.
Ela insistiu:
- Escreve algo, rapaz; deixa pra lá esse marasmo!
Súbito, aconteceu a ideia que fecharia, em definitivo, a questão do escreve-não-escreve:
- Está bem, escreverei um conto ou uma crônica, contanto que você me dê o tema, assunto simples e com boa dose de originalidade.
Ela não se perturbou e, esfuziante, concordou com o negócio aparentemente fácil:
- Ótimo! Amor, vale?
- Sem pieguismo, exagero ou tragédia grega, talvez sirva.
- Por que tanta restrição, meu caro? Você não gosta de dosar suas estórias com pouco de tudo isso? Ou será que você não acredita em uma lágrima, por exemplo?
Ele fitou aqueles olhos inquiridores e contra argumentou, procurando envolvê-la.
- Creio muito mais numa rosa, apesar dos espinhos ou do lugar-comum que daí possa resultar... Se bem, se bem que, no fim de tudo, lágrima e rosa... Deixa pra lá!
Despediram-se afinal; antes, porém, do até-logo meio inaudível, estabeleceram que, no dia seguinte, ela forneceria assunto para o sem-assunto exigente daquela entrevista:
- Você telefona cedo, aí pelas nova horas, no máximo, está bem?
Claro que estava bem, fazendo ele o seu melhor sorriso amarelo de todos os tempos para significar ceticismo quase total. No entanto, telefonou às oito e meia, antecipando-se ao prometido; e alguém informou em compasso de choro, do lado de lá do fio:
- Não está, sumiu... Você ainda não soube?
Evidente que não sabia de nada, mas procurou saber mais tarde e sem grande dificuldade: ela fugira com a madrugada, levando consigo o marido da vizinha!
*O programa A Grande Chance, apresentado por Flávio Cavalcanti na TV Tupi, estreou em 1967 e foi um marco na TV brasileira, revelando talentos até o final dos anos 1970.
*Publicado na coluna "Do Cotidiano" de Inaldo Goulart, no jornal O Globo, em 1969.



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